bicho carpinteiro II

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Há muitos nos atrás eu contei que um dos apelidos que a família gostava de me dar era o de bicho carpinteiro. Também me chamavam de rainha da preguiça. Família incoerente.

Mas bicho carpinteiro era porque eu não parava quieta.

Criança nenhuma para. Se o fizer, é bom ficar de olho, porque alguma coisa está fora da ordem mundial.

Enfim, eu falava muito, fazia muitas coisas ao mesmo tempo, andava daqui pra lá e já que eu tinha chegado lá, voltava correndo pra cá, essas coisas.

Continuo um pouco assim. Gosto de passar roupa. Eu sei, é uma doença e eu devia procurar terapia. Mas gosto. Demorou muito pra desenvolver esse gosto, assim como o gosto por cabernet sauvignon, mas com a idade ele acabou por aparecer. Ambos os gostos. Mas é impossível só passar roupa. Tem que ter a televisão ligada e num programa bem agitado. Se for musical melhor ainda. Dá pra passar roupa e dançar, por exemplo.

Gosto de andar. Muito. Mas nos nossos 10 km por dia tem que haver alguma coisa pra ver. Bichos, vitrines, gente esquisita (é o que mais há), casas de arquitetura duvidosa, desafios de subidas e descidas. Consigo tudo isso em perdizes. Não dá pra só andar com vida interior, refletindo com botões. Ou minha vida interior é pobre demais ou uso botões de menos, mas não consigo.

Dormir. Durmo bem. Mas existe todo um ritual. Tenho que me imaginar construindo cabanas em ilhas desertas com toda a dificuldade de achar material pra isso em ilhas desertas mais o fato de que nunca fiz isso na vida, então o know-how é quase nulo. Isso dá tanto trabalho que durmo logo depois dos alicerces. Melhor assim, a cabana desabando poderia me acordar…

Escrever por aqui. Faço isso na cozinha, de manhã, com o almoço em curso. Dependendo do entusiasmo, o almoço de sopa vira churrasco. Mas é legal ter um olho no monitor e outro no fogão.

Enfim, bicho carpinteiro continuo sendo.

Mas, quer saber? Com a idade isso vem dando uma canseira que vou te contar…

 

 

bicharada

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Eu já tinha uns sete anos quando fui pela primeira vez ao cinema. Um filme do Disney, mas não era animação. Era com bichos de verdade.

Eu já conhecia um monte de bichos, mas aqueles me pareceram mais lindos, mais brilhantes, mais atraentes. O fascínio do cinema.

Hoje me pergunto quais bichos as crianças vão conhecer. Os brilhantes e atraentes do cinema, da TV, alguns enormes do Zoo, acho eu.

Eu conhecia galinhas. De angola e as comuns. E galos. E via minha avó matá-las, as galinhas, dando um tranco certeiro no pescoço. Depois disso era tirar as tripas, as penas e ser feliz, com galinha assada, recheada no forno ou em canja ou refogada ou frita.

Eu nem ligava mais para os sapos que havia em casa. Sabia onde eles ficavam, conhecia pelo tamanho e pela cor.

Ratos e ratazanas entravam dos charcos vizinhos. Entenda-se charcos por terrenos baldios onde a meninada ia caçar girinos e rãs. Ratos minha mãe matava. Com nojo mas perícia. Já meu irmão do meio foi pego em flagrante delito alimentando um rato que encontrou com o parmesão da macarronada. Olhar feio da família inteira.

Escorpiões minha avó tinha uma teoria que fazia com que ela rodeasse o bicho com álcool, depois acendia o fogo e esperava o bicho “suicidar-se”. Pelo menos era a teoria dela. Poética, mas ridícula. E vários se “suicidaram”assim lá em casa.

Lagartixas ninguém nunca matou. Dá azar.

Pernilongos a gente perseguia com panos. Por causa dos charcos e da proximidade do rio Pinheiros, a casa vivia cheia. Espiral não dava conta e o Flit da época também não. Havia campeonatos de caça a pernilongos.

Minhoca eu preservava ao máximo. Eram a nossa – minha e do meu pai – isca para pescar aos domingos na represa.

Aranhas me apavoravam. Até hoje. Sejam do tamanho que forem.

Barata tiro de letra. Sou boa em matar baratas. Não grito, não subo em mesas nem peço ajuda. Como um anjo exterminador não deixo uma viva. Em casa, na rua eu perdôo.

Formiga não gosto mas é pequena demais pra eu ligar.

Tínhamos tudo isso em casa, mais uma tartaruga chamada Raquel que eu nunca fui com a cara, até que ela fugiu. Juro que é verdade.

Esses foram meus bichos. Aquilo que hoje se chamam Pets só fui ter depois de mãe.

E hoje, em apartamento dedetizado, não tenho nada. Uma traça ou outra que veio de mudança com os livros e olhe lá.

E dois humanos.

Que pobreza biológica!

o telefone e eu

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Quando eu nasci, não tínhamos telefone. Também não usávamos muito, porque quase ninguém tinha mesmo. Pra urgências – geralmente tragédias – usava-se o telegrama (será que alguém ainda conhece? Minha mãe gelava quando o carteiro chegava e avisava que tinha um telegrama. Quem será que morreu?).

Pra falar a verdade, até que eu saí de casa, nunca houve lá um telefone. Meus pais só foram ter o primeiro muitos e muitos anos depois.

Bom, quando ainda era criança e me mudei para o Brooklin, num pedaço de ruas com poucas casas, ainda de terra, uma das vizinhas tinha telefone. Coitada! Todo mundo tentava não abusar, mas era inevitável, de vez em quando, ir lá telefonar.

Nas vezes em que a coisa não era urgente, a padaria resolvia. Lá havia um telefone, pago, com fila.

A coisa era tão séria, isso de telefone, e tão cara, que era até brinquedo infantil. Havia uns de plástico que as meninas, principalmente, adoravam ganhar e ficavam horas ali, com aquilo na mão, fingindo ter altas conversas, com caras e bocas. Nunca tive um. Mas bem que quis.

Meu primeiro telefone veio quando já tínhamos filhos. Foi difícil comprar. Dizia-se na época que era um “investimento”. Havia pessoas que compravam vários e negociavam. Era caro, difícil de chegar, tinha que ter a linha no bairro, enfim, só conseguimos ter quando já tínhamos comprado casa e carro. Telefone não era prioridade.

Tanto era caro que as crianças eram ensinadas a não abusar. E na época da internet discada (sim, isso já existiu), a gente ficava de olho patrulhando as crianças. Meu filho mesmo usava mais a internet depois da meia-noite, que a tarifa era menor. Tempos de ICQ, de chats, de blogs.

Depois veio o celular.

E a vida mudou. E a educação mudou. E os bons modos mudaram. E a curvatura da coluna mudou. E a interação entre as pessoas mudou. E as relações humanas mudaram.

Certa vez ganhei um. Não carregava, não punha créditos, não decorava o número. Joguei fora.

Não é muito boa minha relação com telefones. Sei lá, atávico talvez. Sempre que ele toca em casa eu penso, como minha mãe, “quem será que morreu?”.

cozinhando reflexões

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Estou fazendo um frango refogado. Naquela fase da “redução”. Ainda outro dia assisti, na TV, um casal de cozinheiros falando sobre a tal da redução. Na verdade, é o que eu sempre fiz, enquanto leio ou faço qualquer outra coisa e tento cozinhar ao mesmo tempo. Dou uma queimadinha até o cheiro se fazer sentir pela casa toda, saio correndo, ponho um pouquinho de água, mexo e fico torcendo pra ninguém perceber as tais “notas amargas”. Se fizer isso algumas vezes, o frango fica bem saboroso.

Mas não estou aqui pra falar dos meus dotes culinários, que na realidade, são poucos. Quero mesmo falar da tal da “redução”.

Fui muito chamada de vagabunda pela minha mãe quando adolescente. No sentido de não fazer as coisas que ela me pedia. Depois que saí da casa dos meus pais, sempre trabalhei bastante. Era uma vagabundagem circunstancial ou meramente geográfica, digamos assim.

Também já fui chamada de outras coisas.

É isso aí.

Quando a gente chama alguém de alguma coisa, como tanto se faz hoje, principalmente nas redes sociais, estamos reduzindo a criatura. A um pedaço de uma coisa. E ninguém é só um pedaço.

Meu pai foi um péssimo marido, mas um ótimo pai. O Chico é um puta compositor, mas, na minha opinião, um cantor medíocre e um literato chato.

Enfim, pra não me estender e gerar polêmicas onde não pretendo, acho que as pessoas são um montão de pedaços. Redução só funciona pra fazer caldos e carnes.

Bolsonaro pode ser sim um marido legal. Ou um bom cantor. Ou um marceneiro de mão cheia.

Lula pode ser um ótimo orador. Dono, no entanto, de uma voz péssima.

E por aí vai. Tangueiros maravilhosos já conheci que são uma verdadeira nulidade no forró. Mulheres lindas já encontrei que morreriam à míngua se largadas numa cozinha abastecida.

As pessoas são muitas e muitas coisas. Definir alguém por uma característica, por uma palavra, definir nossa gama de afetos por somente amor ou ódio, definir o ser humano por atos isolados, características específicas, dotes ou dificuldades ocasionais só torna a vida muito pobre.

E deixa eu sair correndo, porque o frango no fogão já está reduzido o suficiente. Mais um pouco vira incêndio…

sonhos de ano novo

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Cópia de Casa de troncos 001

Sabe aquela história de “de perto ninguém é normal?” Pois é, às vezes eu fico assustada. Começo a ser notada mais ao longe…

Eu já devo ter contado aqui que nas minhas noites de insônia eu fico me imaginando construindo uma cabana numa ilha deserta. Daquelas de toras de madeira, que dão um trabalhão pra construir, ainda mais que eu sou ruim de serra elétrica, na tal ilha nem tem eletricidade e no manejo do serrote eu deixo muito a desejar…bom, mas dá tanto trabalho construir sozinha a tal cabana que muito antes do fim eu já dormi. Nem a insônia resiste a isso.

Também gosto muito de decoração embora não seja daquelas que muda a casa a cada temporada. Não sou nem mesmo como a minha mãe, que na falta de grana e no muito que queria mudar a decoração da casa, trocava os móveis todos de lugar a cada tanto. Devo a essa mania as cicatrizes nas canelas que guardo até hoje. As coisas, principalmente à noite, nunca estavam onde deviam estar.

Mas gosto de mudar. Nesses inícios de ano fico olhando ao longe, perdida no que posso alterar. Roupa vario bastante. Compro sempre em brechós, então não me dói no bolso nem na alma me desfazer das coisas e colocar novas – pelo menos para mim – no lugar.

Natal a gente ganha presentes. Meu aniversário é colado, então eu ganho mais. Alguns eu peço, outros são surpresa, mas na minha idade sou difícil de ser surpreendida. Meu quarto hoje já ostenta um lindo ventilador de teto que ganhei. Prova de amor do maridão friorento que, apesar do ar condicionado, acedeu às minhas súplicas e deu o ventilador. Ele se cobre até as orelhas e eu fico lá, felizona debaixo do vento…

Mas o que eu queria mudar, mesmo, é a paisagem deste país. Menos miséria, menos discrepância, menos intolerância, menos ignorância.

Porque às vezes me pego sonhando acordada com a tal cabana na ilha deserta. E não é para tentar dormir, não.

 

quem será Marília Mendonça?

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Hoje a FSP publicou um caderno sobre música muito interessante. Com uma listagem das mais tocadas.

Não conheço nenhuma de ouvir. Uns dois ou três conheço o nome e olhe lá.

No entanto, sou uma pessoa que gosta muito de música. Em minha casa todos gostavam. A gente era de classe média baixa, o que nunca nos impediu de ter em casa piano, violino, acordeão, violão. Meus irmãos estudaram música, um por gosto e outro por mandonismo paterno. Mas gostavam muito.

Minha avó cantarolava sem parar Tito Schipa, e canções napolitanas em geral. Meu pai se acabava de assobiar os clássicos do cinema e minha mãe..bom, minha mãe entrava muda e saía calada no quesito música, mas nunca reclamou.

De adulta, já casada e com filhos, fui estudar percussão. Chegamos, eu e meu marido, a tocar alguns anos em grupos de teatro popular, sempre na percussão, mas a gente dança quase tudo e ouve mais ainda. Já então podíamos ser chamados de classe média média, mas gastamos sempre o que tivemos e o que teríamos em discos, CDs, vinis, o que tocasse, até caixinhas de música, das quais tenho uma coleção.

Aposentada, voltei a estudar na USP, sempre fazendo cursos de música.

Tenho uma biblioteca considerável de música, incluindo biografias, ensaios, estudos etc  sobre o tema.

Mas essa lista da FSP sei não… Não conheço ninguém, nunca ouvi aquelas músicas, não tenho nenhum CD que seja de ninguém que está lá.

Em algum momento desta minha caminhada devo ter perdido alguma coisa.

E, afinal, quem será Marília Mendonça???

 

espírito de porco

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Fui muito chamada disso. Não sei a origem mas sabia que não era coisa boa.

Entendia que era porque eu tendia a fazer o contrário do que me pediam. Mas aí, devo esclarecer, não era exatamente o que me pediam. Era o que mandavam fazer, sempre começando com uma avaliação crítica sobre a minha pessoa, tipo: “já que você é tão vagabunda, agora vai varrer toda a calçada a semana inteira”, ou “pra quem foi tão mal na escola, não pode reclamar, vai comer feijão, sim”e por aí afora. Hoje me pergunto se eram pedidos ou punições, mas hoje, como há sessenta anos atrás, se vierem me pedir alguma coisa começando desse jeito eu não faço. Com o maior prazer.

Assim, quando leio nas redes sociais avaliações políticas e/ou comentários geralmente sobre política começando desse jeito: “pra vocês, coxinhas, que pediram, agora engulam”e coisas tão gentis assim, me pergunto se a real intenção de quem faz semelhantes comentários é trazer para o seu lado opiniões divergentes, politizar ou conscientizar. Sei não. Me faz lembrar de mim mesma, sendo chamada de espírito de porco.

O ser humano gosta de elogios. Sinceros ou não. E desgosta de críticas. Justas ou não.

Até aí chegamos todos, certo? E, se for levar a sério as intenções de “politização” nas redes, de todos os lados (pois todos parecem querer convencer, de todas as maneiras, o outro lado) como começar nossos embates dessa forma?

Minha mãe, quando mais calma, argumentava com o cansaço dela fazendo tudo, de ninguém ajudando, etc, etc. Aí eu tendia a fazer alguma coisa. Não muito, que não estou aqui pra tirar o meu da reta, que eu era bem folgada, sim, mas fazia. Percebia que era real o que ela dizia.

Nunca, porém, ao ser tratada como espírito de porco. Aí eu assumia a “suinidade” seja lá o que isso for.

Não defendo os falsos elogios nem a falta de críticas. Ao contrário. Só gostaria de não ver tanta gente sendo xingada quando o que se quer é ganhar pessoas para uma idéia. Não na base do “eu não disse?”comemorativo das desgraças alheias. A desgraça nunca é para um grupo só. Queiramos ou não, estamos no mesmo barco.

Afundando.

marketing de antanho

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Vida de aluna de grupo escolar, há sessenta anos atrás, era muito, mas muito diferente do que é hoje.

Pra começar, o grupo era de madeira sobre pilastras. Até aí, tudo bem. Não acho que a forma influencie o conteúdo nesse caso. Havia uma ou outra goteira quando chovia mas a gente punha uns baldes e tudo certo. A gente também usava galochas. Uma coisa que poucos ouviram falar ou mesmo viram. Há uns anos atrás, tentaram resgatar galochas como ítem fashion, de plástico estampado e tal. Acho que não pegou. No Brasil tropical chove bastante, mas é também muito quente. Enfim, era aquilo que alguns de vocês conhecem mas sem charme, sem estampa e pesado. Fazia bolhas.

Era a única escola do bairro. Ricos e pobres estudavam lá. A filha da diretora, que a gente considerava rica e que morava do lado de lá da av. santo amaro, no campo belo, e a filha da faxineira, que morava do lado de cá do rio pinheiros, no que hoje é a Marginal. E sabe que dava certo? (modo ironia, nos tempos de hoje precisa explicar.)

E havia, como distração, a visita dos representantes da Kolynos. Eles sempre foram, todo ano, nos quatro que estudei lá.

Era assim: a professora parava as aulas, todos os alunos iam para a sala da igreja, perto da escola, em correria pela rua de barro e mato, e os representantes, com aventais brancos, passavam um filminho. Foi a primeira vez que eu vi um filme. Só com mais de oito anos fui ao cinema. Televisão não conta, porque nossa Stromberg Carlson tinha uma imagem horrorosa.

Era uma animação sobre cáries. Por isso, por acharem “didático” é que a escola deixava passar. E, não me surpreenderia nem um pouquinho se também houvesse algum agradinho” para os diretores ou até o governo estadual. Afinal, a Kolynos não era a única no mercado. Minha família e eu, até hoje, (tenho uma fidelidade canina a pasta dental) só usamos Colgate.

Eles iam embora, não sem antes darem a cada criança uma escovinha e uma pasta em miniatura. Muitas amiguinhas, pra meu espanto, comiam a pasta. Eu gosto muito de pasta dental mas não como. Só andei comendo sabão de côco por gostar do cheiro, mas isso é outra história.

Outra super diversão eram as aulas de catecismo. Eu adorava! Costumava faltar na maioria e ia pegar amora no mato. Ou brincar de pique-esconde. Ou de Robinson Crusoé.

Resumo da ópera: nunca usei Kolynos, nunca comi nenhuma pasta dental e adoro trilhas e aventuras.

E sou atéia, claro.

 

Inveja pode matar. Ou não.

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Meu vizinho deve ter uns 90 anos. Acho.

Oriental, provavelmente japonês ou descendente, mora num prédio pouco abaixo.

No começo, da primeira vez que o vi, achei que era só mais um louco do bairro. Aqui é preciso explicar que, antigamente, cada bairro tinha seu louco. Eu nasci aqui perto, na Lapa, e tínhamos nosso louco logo ali na esquina. Devia ser o pai ou avô de alguém, provavelmente com Alzheimer, mas isso só sei hoje. Naquele tempo, era o louco manso, que as pessoas davam comida, roupas, e que as mães não viam qualquer problema nas crianças fazerem bulliyng com ele ou, como no meu caso, sentar ao lado dele na calçada e conversar.

Este senhor de hoje me deu a ideia do louco de antigamente por causa das roupas. Ou, melhor dizendo, das muitas camadas de roupas que vestia.

Um capacete. Daqueles de operário da construção civil. Uma capa de chuva, daquelas de trabalhador da Sabesp em dia de chuva. E mais um monte de outras coisas. Uma vitrine ambulante da mão de obra.

Também um cajado, de andarilho. Óculos. Cachecol. Sandálias com meias grossas.

Enfim, não é figura que passe despercebida.

Ele andava – e ainda anda – a zero por hora. Certa vez nos disse que tinha ido até a Liberdade. Uns 7 ou 8 km que ele deve ter feito a pé. Já o vi comendo sanduiches nas escadas ou calçadas do bairro ou bebendo água de uma garrafinha. Suponho que ele deva levar um farnel, pois naquela velocidade, seus passeios levam um dia inteiro.

E ele vai. Sempre vai. Com chuva, com sol, com frio ou calor.

Também já o encontrei num ônibus. O motorista, simpático e paciente, esperou o tempo que ele levou pra subir. Dentro, mais de um passageiro se levantou para ele sentar. Existe vida gentil em Sampa  ainda, mas não sei por quanto tempo mais…

Ele gostava das minhas cachorras. Acho que gosta de bichos. Parava pra falar com elas. Elas se foram, ele continua.

E eu, eu morro de inveja dele. Quando reclamo das ladeiras de Perdizes, quando reclamo do calor, ou do frio, ou da chuva, ou das mazelas que a idade acumula. Eu também ando. Com guarda-chuva sempre na mochila, sem capacete e sem cajado – ainda- mas reclamo.

Quero poder chegar lá. Não me importo de vir a ser a louca do bairro, desde que possa andar onde minhas pernas me levarem.

 

 

de comidas para a alma e para o estômago

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cozinha

Como eu nasci em meados do século passado e sou mulher, a praxe era que aprendesse a cozinhar. Aos meus irmãos cabia aprender futebol e/ou outros esportes com bola, estudar engenharia, direito ou medicina, e olhe lá. Eu poderia, se quisesse, fazer normal, o antigo magistério, se é que ainda existe esse curso.

E cozinhar. E bordar. E limpar. Quanto mais não fosse, em tendo dinheiro na vida, pra aprender a mandar pois, como repetia sempre minha mãe, quem manda tem que saber fazer.

Eu não segui exatamente a receita. Nem tanto por rebeldia ou vanguardismo, mas por detestar magistério e cozinha.

Mas quando me casei, sabia sim fazer algumas coisas. Não as que minha mãe quis ensinar, mas as que eu aprendi por aí. Sabia fazer pipoca (e aqui cabe um parêntesis: minha mãe não sabia ou não gostava, pois nunca fazia. Eu achava que pipoca era coisa que só pipoqueiro sabia fazer, até conhecer um primo da minha mãe, taxista, que fazia caldeirões de pipoca quando a gente ia na casa dele, bendito seja!) e sabia fazer amendoim doce, aprendido com minha deliciosa tia Elisa. E café.

Como a gente não consegue viver bem só com pipoca, amendoim e café, meu marido me ensinou a fazer arroz e macarrão. E eu tive sim, logo que casei, uma empregada maravilhosa que cozinhava divinamente. Não, eu não aprendi nada com ela, mas aprendi a comer bem. Quando ela saiu de casa e eu tive que ir pra cozinha, sabia o que gostava, o que queria e onde comprar os livros capazes de me ensinar tudo isso.

Quase como na vida.

É preciso saber o que se quer e como se quer.

Pena que os livros, tão maravilhosos sempre, não nos ensinem a fazer tudo.

Mas chegam bem perto.