coronariando em casa

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Meu apartamento não chega a 100 ms. É grande, porém, para os padrões de hoje. 

Eu não sou de acumular nada. Entre outras coisas, porque, como mostrei acima, não caberia. 

Roupas não usadas por um ano, no máximo, são doadas. As que deixam de servir também, que eu não sou mulher de ficar me martirizando com aquilo de “um dia vou voltar a usar, ou um dia vai caber de novo”. Isso nunca funciona, nem pra homens nem pra roupas. 

Coisas de cozinha só tenho as que uso diariamente. Meia dúzia de pratos rasos, meia dúzia de fundos. Lembro apenas de uma vez em que vieram sete e não seis pessoas para comer em casa. O sétimo teve que sentar numa mesinha de canto (eu também só tenho seis cadeiras) e comer em prato fundo. 

Sei, no entanto, que esses são pequenos e ridículos problemas de classe média. Que não deveriam importar neste momento, mas acabam incomodando. 

Os pratos, as cadeiras? Não. A falta de coisas inúteis. 

Um amigo fez umas colagens lindas. Aí lembrei que eu também, na adolescência, gostava de fazer colagens. Resolvi tentar. 

Cadê que eu tenho revistas? Desde a época em que o Mino Carta era editor da Veja que eu não assino mais nada. Sim, a Veja já foi razoável. Priscas eras. 

Quando meus filhos eram crianças havia alguma coisa em casa. Gibis, fanzines, por aí. Os dois chegaram aos quarenta e só eu os acho crianças ainda. 

Então, nada de revistas. 

Tenho fotos antigas, poucas mas tenho. Mas não pretendo recortá-las. Embora devesse. Algumas espero que só sejam (re)vistas quando eu já não estiver mais aqui. São humilhantes. 

Tenho livros com imagens. Mas lembro bem do que senti quando descobri que minha filha, bem pequena e com dentes nascendo e coçando, resolveu comer minha edição do Dom Quixote. Eu amo minha filha, mas a relação balançou nesse dia. Eu amo meus filhos mas meus livros são sagrados. 

Então vou procurar coisas. Qualquer coisa. Nas minhas caixas de artesanato guardo sobras de tecidos. Têm sido úteis. Todas nossas máscaras vieram de lá. Guardo coisas de natal. Deve haver algo.

Guardo broches antigos, da época em que a gente fazia campanha de fundos. Já fiz muito bazar, já fiz muito broche, já fiz muita torta de beringela pra vender em eventos de campanhas. Bons e honestos tempos, em que os fundos vinham desse tipo de ações. Guardei alguns broches. 

Vou ver o que posso fazer. 

Em breve, nos melhores posts do ramo.

Vocês não perdem por esperar.

Parece uma ameaça.

E é.

literatura pro avião não cair

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Quando viajo de avião costumo me preparar com antecedência. Isso significa comprar um monte de palavras cruzadas nível desafio e livros que me ajudem na provação. Não livros de autoajuda mas livros que me ajudem, o que é diferente.

Cada um sabe onde lhe aperta o calo, já dizia meu pai que, como eu, também gostava de provérbios. Um livro pra me ajudar precisa ser cheio de diálogos, precisa tratar de assuntos leves ou tratar de forma leve assuntos pesados. Quando o avião chacoalha e eu me imagino vivendo meus últimos minutos na vida, o que menos preciso é de filosofia ou digressões à respeito da nossa passagem na terra. Eu preciso de tramas envolventes, de muito papo, de situações intrincadas. Quase como livro policial, mas para mal dos meus pecados eu sou ruim de memória. Então não consigo nunca resolver crimes em livros policiais porque ou tenho que fazer diagramas em papel ou simplesmente esqueço o nome dos suspeitos e às vezes até da vítima. 

Livros agitados. Já li Rubem Fonseca, embora o ache um pouco pesado pra avião. Os temas, não o autor.

Já li muito Veríssimo, mas esse é leve demais. De novo, os temas, não o autor. 

Gosto muito de Rubem Braga, mas já li quase tudo dele e se releio não mantenho a atenção da mesma forma que da primeira vez. E aí fico sentindo o balanço do avião. E aí fico refletindo sobre a finitude da vida. E aí não adianta nada estar lendo …

Certa vez um amigo me recomendou Nick Horby. Um achado, mas cansa um pouco com o tempo. Durou algumas viagens só. 

Nesta quarentena também tenho procurado ler coisas mais leves. Mas na falta de sair pra comprar livros e não gostando de comprar virtualmente ( livro pra mim é que nem fruta na feira: preciso cheirar, sentir, ler orelhas e contracapas e só aí pedir: me embrulha meia dúzia…) tenho lido o que estava encalhado na fila de espera aqui em casa. Amei ter conhecido Eric Nepomuceno em livro, já que só o conhecia em entrevistas onde, diga-se de passagem, tinha dele uma impressão ruim. Como entrevistador ele é um ótimo escritor!

Estou lendo Luis Aragon. Em português de Portugal, um livro da década de 30. Uma dificuldade mas interessante. Os bairros elegantes, chama-se. Onde se aprende que na França do século retrasado a diferença entre a Republique e os Jardins em Sampa deste século é pequena. 

Agora bom mesmo pra voar, em todos os sentidos, foi ter lido e relido uns 4 Júlios Verne que tinha na estante esperando a vez. Recomendo. Embora, como sempre em Verne, a premonição esteja presente e isso às vezes me faz ficar pensando em nossa realidade. Mas Verne é Verne. 

Daqui a uns 80 dias teremos feito a volta ao mundo e talvez possamos descobrir que, sim, ganhamos esta parada. 

Em todo caso, preferia estar num balão nesta quarentena. 

corona e máscaras

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Tenho pensado muito em máscaras nestes dias de corona. Não só nas máscaras físicas, aquelas que eu tive que comprar a preços absurdos. Mas nas máscaras outras, essas que a gente põe sem nem perceber, que a gente usa em variadas situações e lugares.

Explicando.
Eu costumo olhar pelas janelas. Desde que me mudei para apartamento, eu que sempre só havia morado em casas térreas, adoro olhar pelas janelas deste meu décimo quarto andar. Tudo fica pequeno, deixa de me assustar, parece que eu consigo olhar mais longe e melhor.
Bom, sempre olho pelas janelas.

Ultimamente é o máximo de diversão que me permito : olhar os outros pela janela. O que não deixa de ser interessante em relação a algumas pessoas mas esse é outro assunto.
Mesmo do décimo quarto andar tenho percebido que as pessoas andam se vestindo mais relaxadas, no mau sentido. Neste bairro era raro ver alguém relaxado, mesmo pra ir à farmácia era comum ver mulheres arrumadas, com baton, cabelo e unhas feitas, roupa esportiva mas de grife. Bairro besta, eu sei. Fora os que iam à farmácia de carro, morando a poucas quadras. Falo muito em farmácia porque moro ao lado de uma.

Agora a coisa mudou. A minha teoria é que tudo isso deixou de importar muito. O que está em jogo é muito, muito maior do que meu vizinho me ver de havaiana chumbrega e desgrenhada. A questão crucial é: tem ou não álcool gel nessa porra de farmácia?

Com comida a mesma coisa. Fico pensando nas hordas de milenials que já cresceram a base de Nuggets, hamburgueres, miojos e que tais. Sem saberem cozinhar.
Daí o que resta, neste bairro de classe média é fazer pedidos. E haja motoboy de entrega. Da manhã à noite, é só o que se ouve. Deve ter gente que pede desde o café da manhã até o petisco antes de dormir. Tem sido a última coisa que eu ouço antes de dormir e a primeira que ouço ao acordar. Bons tempos em que ouvia as maritacas locais.

Daí, fico pensando como ficam as circunstâncias.
Sim, porque se o homem é o que é mais as circunstâncias, o que dizer de um hambúrguer comido sozinho em casa, de pijama esmulambento, meio frio, trazido pelo motoboy? Será que sobrevive em paladar ? Será que mudando o entorno e as máscaras usadas (no sentido de caras e bocas e repertório ) o sabor será o mesmo?

Um romance engatado ao vivo resistirá online? Não online mascarado, aquele em que perde-se horas para dar à aparência um ar de “relaxamento casual”mas o online de coronavirus, aquele em que vc sempre pensa se deve ou não tomar banho, pentear o cabelo, fazer a cama, etc, já que…
E é este “já que”que mata. Além do vírus.

Talvez eu esteja sendo afetada pelo isolamento, mas ando pensando muito que, agora que a gente tem que por máscaras pelo vírus, acabe deixando cair as máscaras sociais.

coronariando

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Nossa capacidade de fantasiar ou de assumir nossas fantasias parece diminuir com a idade.

Bom, pra mim parece. As fantasias permanecem mas só em determinadas horas, nas quais preciso fugir um pouco da realidade.

Horas de baixa autoestima, horas de preocupação, mas também horas de descanso, de devaneios.

Em criança, ou porque precisasse fugir mais da realidade, ou porque minha autoestima não fosse exatamente cultivada pela família ou só porque eu tenha sempre gostado de devanear, eu fantasiava mais.

Eu fantasiava, e era bem constante isso, que a cidade, por qualquer motivo, ficava absolutamente vazia. Quando eu digo “a cidade” estou falando do centro da cidade, que é como se dizia quando a gente tomava o ônibus pra ir ao centro.

Como eu dizia, meu sonho era a cidade vazia. Eu poderia entrar nas lojas que quisesse (geralmente eu queria o próprio Mappin, primeira loja de departamentos que conheci, que tinha de tudo), experimentar tudo que quisesse, poderia entrar em todas as lanchonetes (meu sonho de consumo não incluía restaurantes) e comer tudo que quisesse, poderia entrar nas docerias e, é claro, ir de bolo em bolo.

Dificilmente queria entrar em loja de brinquedos. Em joalherias queria. Coisa que, de adulta, deixei de querer, ainda bem, suponho.

Eu gostava de loja de tranqueiras. Meu pai era leiloeiro, então tranqueiras pra mim incluía objetos bizarros, enfeites, livros estranhos e raros.

Continuo gostando. Muito.

Mas a cidade vazia era o grande sonho. Não só por conta do que me permitiria fazer, sem nenhum tipo de restrição, mas pelo silêncio – que sempre prezei- pela calma, pela possibilidade de fazer as coisas devagar.

Nunca previ, nem fantasiei nenhum tipo de vírus. Literatura de ficção nunca foi minha predileta, com exceção do Júlio Verne, que não ponho nessa categoria.

E cidade vazia, como estou vendo ficarem as mais lindas, por conta de doença, nunca imaginei.

Uma coisa é a fantasia, onde a gente realiza sonhos, sabendo que são só um refrigério pra realidade cansativa. Outra coisa é essa paz dos cemitérios.

E olhe que eu sempre gostei de cemitérios, exatamente pela paz.

Que dias!!

carnaval

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O ano era 1972.

Um ano de casados, nenhum filho, muito espírito de aventura, pouco dinheiro.

Pareceu razoável viajar para algum lugar bonito. Para baratear, viajar de carro. Aquele fusquinha verde, já velho em 72.

Como disse, era 72. Pra ser mais exata, carnaval de 72. Pra ser mais exata ainda, sábado de carnaval de 72 quando chegamos em Salvador, depois de ter guiado de São Paulo até lá, dormindo num posto de gasolina no caminho.

Só um detalhe nos escapou. Não tínhamos feito reserva em nenhum lugar porque, desconhecendo Salvador e seu carnaval, achamos desnecessário.

A gente além de ter pouco dinheiro e muito espírito de aventura, era ingênuo pra caramba, pra não dizer bobo.

Começou a ronda dos hotéis. Não havia internet (sim, já houve um mundo sem internet) e muito menos Waze ou GPS. Havia o guia 4 rodas.

O problema era que o guia, mesmo em suas indicações mais baratas, ainda era caro.

O jeito foi perguntar nos hotéis que nos pareciam simples.

De pergunta em pergunta, caímos no hotel República, acho. Em plena Avenida Sete de Setembro.

Tinha sobrado um quarto, desistência de alguém. De solteiro. Com só uma cama estreitinha. De fundos. Quase um quarto de gata borralheira, mas achamos foi bom.

De repente, desmanchando as malas, um monte de gente andando de cá pra lá, alguns já usando, outros ainda terminando de fazer suas mortalhas.

Ué, mortalha não é roupa de morto? Deixa pra lá, aqui é não. Aqui é roupa de muito vivo. De pular carnaval, barata e tamanho único.

E aí chegou o som.

O SOM.

Uma coisa que eu nunca havia ouvido e olhe que passei a infância morando ao lado da fábrica da BomBril com seus apitos.

Uma coisa que me pareceu desarmoniosa, dissonante, esganiçada, esquisita, indefinível.

Que é isso, minha gente?

O trio elétrico do Dodô e do Osmar.

Fui à varanda ver. O hotel era tão simples e aquele povo baiano tão alegre, que o pessoal que dormia nos quartos da frente, grandes e com varandas, deixava todo mundo entrar e ficar lá, na beira do desfile, quase encostando nos trios.

E quando saímos pro carnaval, nem precisou perguntar onde era. Foi só seguir a Sete de Setembro e desaguar na praça Castro Alves, embora desaguar não devesse ser a palavra.

Foi na Praça que pela primeira vez na vida eu saí do chão sem asas. Fiquei ali, desesperada(logo eu que tenho pavor de multidões) levantada por corpos e mais corpos, ocupando sim, o mesmo lugar no espaço, contrariando as leis da física, até conseguir voltar pro chão e escapar.

Quando conseguimos andar pelos próprios pés, ainda me diverti vendo o povo dançar, cercado por cordas (na época os blocos usavam cordas pra separar), mijando pelas ruelas (bastando alargar com as mãos a mortalha) e cantando sem parar.

Vi outros trios elétricos e acabei me acostumando com o som, embora não goste até hoje.

E quando voltamos pra nossa casinha na Vila Sônia, descobri, ao procurar a chave de casa, que, sem querer, havia trazido a chave do nosso quarto em Salvador.

Que abriu a minha casa perfeitamente.

Coincidências ou evidências.

Não sei.

Mas que foi bom, foi.

Elas

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Coisas são coisas e gente é gente. Gente tem nome, bicho também. De algum jeito é preciso caracterizar gentes e bichos, pois que são diferentes entre si. Embora eu não distinga um pinguim de outro, mas deve ser pela falta de contato.

O resto, as coisas, são, no máximo, nomeadas pelo ano ou pela marca. Tive uma Brasília azul celeste, logo que foi lançada, que era um horror de carro. Não obstante, nem pudemos escolher a cor, tal a fila de espera.

Mas é isso, coisas são distinguidas geralmente pelo modelo, pela marca, pelo ano.

Gente também, mas tem nome.

Nunca dei nome a nenhum carro, a nenhum objeto, a nenhuma coisa.

Mas tem certas coisas que, não sei explicar, são tão importantes, tão necessárias, que é quase irresistível nomeá-las de forma mais carinhosa, mais íntima.

Recuso-me a dar nome, porém.

Eu as chamo de “elas”. E ao chamá-las assim, as pessoas sabem a quem me refiro.

São de vida efêmera. Alguns meses, talvez nem isso.

Nem sempre eu as encontro.

Nem todo mundo as ama como eu amo.

Mas quando elas se vão, a vida fica mais triste. O resto do ano demora a passar. As cores ficam mais sombrias.

Elas, de presença tão marcante pra mim, são delicadas. Quase etéreas. Quando estão presentes, um leve olor paira no ar. Porque elas não têm cheiro, têm olor, como as heroínas de Alencar.

São minhas lichias.

“Elas”.

 

as coisas

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Eu sou capaz de aguentar situações difíceis por longo tempo. Sou corintiana. Passei 23 longos anos da minha infância e juventude longe de um campeonato, numa idade em que estar no topo, ou pelo menos entre os primeiros parecia ser fundamental.

Pra mim não era. Eu gostava e gosto do meu time. Campeonatos são só consequências. Benvindos, mas consequências.

Mas anda muito difícil aguentar a atual situação de nosso país. Que já foi pior, eu sei, mas numa época em que pelo menos havia resistência, luta e, portanto, esperança de mudar.

Hoje a luz no fim do túnel parece estar depois da última curva, aquela que a gente não vê. Mas eu ainda acredito nela. E gosto dela. Bom acreditar que ela está lá, ao andar nas trevas.

Dizem que falta um projeto. Pode ser. Nem me parece um projeto tão complexo. Saúde, educação, liberdade. O resto a gente vai dando um jeito.

Pessoas aos montes dormem e vivem nas ruas, debaixo de marquises (que caem matando, de vez em quando), comendo do lixo, na maior cidade do país.

Pessoas têm celular e estão em redes sociais, mal sabendo ler e escrever, o que dirá interpretar.

Pessoas que não pensam como a maioria ao lado são maltratadas, hostilizadas, agredidas.

As pessoas têm coisas. E são estimuladas a ter cada vez mais.

As pessoas vão se tornando, elas mesmas, coisas.

Coisas não têm dó nem piedade. Coisas que estragam podem ser trocadas. Coisas velhas devem ir para o lixo.

Se trocarmos a palavra coisas por pessoas, nenhuma diferença fará.

Lembro de Drumond: “ …mas eu não sou as coisas e me revolto…” e me sinto hoje, talvez pior do quer as coisas.

Eu nem sei como me revoltar.

 

da importância da chuva na minha cultura geral

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Se eu estiver com guarda-chuva grande e bota impermeável, não ligo muito pra chuva.

Não costumo, porém, levar esses itens em viagens, embora tenha uma razoável coleção de guarda-chuvas em casa. Se eu paguei por eles- e muito-em viagem, eu trago de volta. Mas, paradoxalmente, nunca levo.

Voltando ao ovo frio (a carne está cara): quando chove e eu estou sem os itens necessários, entro no primeiro lugar que encontro.

Foi assim que entrei no Museu Britânico. Eu não gosto de museus, com raríssimas exceções. Mas a chuva estava forte.

Aguentei ver uma parte do museu que devia se chamar museu egípcio e não de Londres, tal a quantidade de peças egípcias existentes. E, tenho certeza, trazidas sem a anuência dos donos.

As outras partes eu vi pela internet, acessada lá dentro mesmo. A chuva ainda não havia passado…

Assim também já visitei duas vezes o Centro Cultural da Caixa Econômica, o que, aliás, recomendo, mesmo em dias de sol. É muito bonito e interessante. Principalmente o próprio acervo remanescente da Caixa no último andar. Revi todas as máquinas de escrever do meu pai e avô. Quer dizer, as máquinas em que eles escreviam, porque tanto pai como avô só tinham da caixa a caderneta de poupança.

Já entrei em lojas em que nunca entraria. Em bares em que, em situações climáticas normais, nem passaria perto.

Alguns foram boas surpresas, outros só reafirmaram minhas crenças.

Já entrei em igrejas, tal como o cachorro da piada, que vê a porta aberta.

Já pedi para entrar numa guarita de guarda mas não deixaram.

O que me salva dessas incursões, sempre, é que, assim que começa a chover, aparecem vendedores de guarda-chuva. Aqui, em São Francisco, em Paris, sempre houve um camelô que surgiu do nada, como cogumelo.

E, sim, todos, absolutamente todos, os guarda-chuvas sempre foram chineses. Comprados aonde for.

Será que chove tanto assim na China??

 

de natal, de viagens, de vida e morte

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Leio num site qualquer que o gosto por viajar está nos genes. Não me dou ao trabalho de ler a matéria. Cada vez que algum título cita genética eu já fico com pé atrás, se não for texto científico. Se cita a palavra “gosto” então, fico com os dois pés atrás.

Embora, assim como eu me acabo por viajar, abrindo mão de quase qualquer coisa por isso, por quase qualquer viagem ( o quase boto só pra acalmar meus princípios quase científicos), meu pai também era assim. Mas minha mãe não.

Meu pai aceitava qualquer convite pra viagem, mesmo que fosse sabidamente uma roubada. Minha mãe evitava a maioria deles.

Ele saía com a roupa do corpo, se a pressa assim exigisse e minha mãe levava a casa com ela, todas as poucas vezes em que se dispôs a viajar.

Resultado, já acampei com eles em criança, com meu pai usando por dias  a mesma roupa que ele lavava no mar e minha mãe buscando madeira pra fazer mesa e bancos na areia, sem deixar de lado flores na mesinha. Cada um com suas dores e seus prazeres, não é o que dizem?

Mas não acredito em genética no caso. Acredito em exemplos.

Eu amo viajar, pra qualquer lugar. Já tomei trem com maridão pra conhecer a última estação da linha, na periferia de são Paulo. Ônibus também.

Mas nas viagens longas, de avião, apesar de cada vez levar menos bagagem, não esqueço nunca de arrumar o lugar onde vou ficar como se fosse minha casa. Na chegada e na saída. Faço camas até em hotel. É mais forte do que eu.

Parece que ao tentar transformar lugares de hospedagem em casa, mesmo que só por algum detalhe, me sinto mais reconfortada. Mas adoro sair de casa.

As contradições de cada um.

Porém agora, no Natal, quando boa parte das pessoas viaja, eu viajo nos meus mortos.

Tenho hoje mais família morta do que viva, o que mostra que estou velha e eu mesma mais pra lá do que pra cá.

Mas essa viagem, a última, não desejo fazer.

Não sem antes conhecer o expresso Paris- Moscou, a África, a muralha da China, a ilha de Páscoa e um monte de outros lugares, sem esquecer lençóis maranhenses, ilha de Marajó e Havana.

Isso demandará tempo. Muito tempo.

Dentro em breve faço setenta. Minha antiga meta de cem anos talvez não dê conta de cumprir esses objetivos.

E é aí que entra a genética do começo do texto de novo.

Não basta o gosto por viagens, cientistas de plantão, há que se estender a vida humana.

Mesmo que em certos momentos políticos como o que hoje vivamos, a gente queira morrer ou matar.  Enfim…Feliz Natal!

 

mamãe noel de olho puxado

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Existem pessoas que marcam nossa vida. Às vezes são parentes próximos, às vezes não.

Ela não era nada minha. Minha mãe dizia que poderia ter sido minha madrinha se a conhecesse na época. Mas não foi.

Ela era exótica no meu universo de criança porque, apesar de eu ter nascido em São Paulo, e, portanto, estar rodeada de japoneses na escola, nas ruas, por toda parte, não tinha nenhum japonês frequentando nossa casa. Só ela e família.

Dona Aparecida. Sim, ela era japonesa mas tinha um nome “brasileiro” também. Nunca eu soube seu nome real.

Ela veio para casar. Não conhecia o marido, arranjado pela família. Ele japonês também.

Teve uma única filha. Contavam, mas é claro, eu nunca pude comprovar, que o casamento desandou após o nascimento dessa filha. O que eu podia sim, comprovar, era que o casal, estranhamente, não dormia no mesmo quarto. Em ambos os quartos havia altares e, para meu espanto, com comida na frente, em tigelas. Tudo naquela casa me parecia espantoso e espantosa era também minha curiosidade, xeretando todos os cômodos.

Eles eram fotógrafos e moravam no Pari. Marido, mulher e filha.

A filha única, obesa mórbida numa época em que nem se sabia que isso era doença, gostava muito de mim e de brincar. Tinha uns 15 anos mais que eu mas era a criança com a qual eu brincava quando ia lá, sempre nas festas de fim de ano.

E que festas! No estúdio de fotografia, um grande salão, era armada uma mesa enorme em cima de cavaletes e em volta dela se ajeitavam os funcionários, parentes e amigos dela, da dona Aparecida. O marido era o chefe da casa mas quase não falava. Ela ria e falava pelos cotovelos. Tinha alguns funcionários e vizinhos que moravam em casas alugadas por ela. Acho que naquele tempo fotografia dava algum dinheiro.

Metade da enorme mesa continha perus, presuntos, e coisas de natal brasileiro. A outra metade continha comida japonesa. Eu amava os doces japoneses: de feijão e balas bonitas. Amo até hoje. Mas nunca consegui comer um sushi.

Ganhei presentes incríveis de natal dela. Incríveis porque eram os únicos verdadeiros presentes. Em casa eu ganhava sapatos marrons ou azuis marinho escolares e olhe lá. Apesar do meu aniversário logo depois do natal.

Dela ganhei minha primeira máquina fotográfica, minha primeira boneca (e única, eu nunca gostei de boneca), jogos de armar, o tecido chiquetésimo do vestido de minha primeira comunhão, bombons. Quando ela vinha nos visitar, pouco antes do natal, era a chegada do papai noel pra mim. E para os outros também, que ela nunca esqueceu ninguém.

Hoje acho que morreram todos. Perdi o contato. Já voltei ao Largo do Pari tentando achar o estúdio deles. Não existe mais.

Minha mamãe Noel se foi. Aquela que me tratava como afilhada. Não sem antes me deixar o álbum de fotos do meu casamento.

Mas isso faz tempo. Quase meio século.

Aparecida Yae. Talvez ela gostasse de saber que hoje eu também gosto de fotografar. E continuo comendo moti e manju. Só sushi não dá.