o guarda-roupa

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O quarto parecia com o de um hospital ou albergue. Três camas de solteiro, dispostas lado a lado com um criado-mudo entre elas. Na frente um guarda-roupa.

O guarda-roupa era de uma madeira que formava desenhos, com puxadores nacarados. Quantas não foram as vezes em que eu dormia olhando para os desenhos e imaginava rostos, monstros (aí eu não dormia), roupas e paisagens.

As camas eram diferentes umas das outras, o que dava aquele ar de pensão. Ou de quarto dos três porquinhos, já que a minha era pequena, a da minha avó média e a do meu irmão bem grande.

Dentro do guarda-roupa, de um tudo. Roupa de cama, roupa dos meus pais, roupa nossa.

Mais fotografias e “coisas”.

Havia as jóias da minha mãe. Arrematadas nos leilões da Caixa Econômica, já que meu pai era leiloeiro na época. Não sei se ele achava investimento ou se gostava de jóias. Minha mãe mesmo usava pouco. Só para casamentos, essas coisas. Já eu, na frente do espelho, porta trancada, me divertia!

Na adolescência dei pra usar algumas. Perdi várias. Daí eu mesma parei de fazer uso delas, embora minha mãe nem tenha percebido. Como eu disse, ela usava pouco.

Dentre as “coisas” havia um pauzinho envernizado, cheio de fitinhas coloridas. Alguma coisa como uma varinha de fada só que de madeira. Minha avó , a dona da “coisa” me contou que ganhou aquilo ao vir para o Brasil, numa festa quando da passagem pela linha do equador. Não sei, nem ela me explicou, para o que servia. Pra mim era uma varinha de condão.

Havia umas luvas de renda e uns leques que eram lindos. Infelizmente as luvas não esquentavam nada, então nunca pude usá-las. Minha mãe um dia me ensinou que era para serem usadas uma delas na mão e a outra segurando. Não sei bem o porquê. Acho que era etiqueta da época. Se não serviam para esquentar nem mesmo se podia usar as duas ao mesmo tempo, pra que serviam então? Mistério. Agora as luvas sumiram e minha mãe morreu. Mistério eterno.

Havia um coisa vermelha que eu achei no bolso do casaco de pele da minha mãe e, ao surgir na sala com a coisa na mão, perguntando para o que servia, quase mato minha mãe e minha avó de susto. Nem lembro o que me responderam na época, mas muito tempo depois descobri tratar-se de uma camisinha. Em todo caso, não me deixaram brincar com a coisa. E eu já estava achando um jeito de transformar em bexiga…Pena.

E havia a “coisa”maior. A “carta anônima”.

Aquilo mudou a vida da minha mãe, e as consequências vieram até nós, os filhos. Muito, muito tempo depois ela me contou a história toda. Cabeluda.

Não, não vale a pena falar disso. Anônima era e anônima ficou. Nunca entendi se o fato de guardá-la significava uma tendência masoquista de minha mãe ou um fundo de rancor na personalidade.Minha mãe, como disse, já se foi, a carta desapareceu no passado, as pessoas envolvidas também não mais existem.

Só ficou esta lembrança do armário das “coisas”.

E uma vontade muito grande de saber onde foram parar aquelas luvas tão lindas.

Hoje eu sei que nem tudo precisa esquentar. Algumas coisas nessa vida são assim, não servem pra mais nada a não ser embelezar.

 

 

 

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