anonimato

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dedos apontando

 

Pode ser que pareça lenda, pode ser que pareça coisa inventada, mas houve um tempo em que carta anônima era um acontecimento.

A pessoa se esconder atrás do anonimato numa carta era o máximo da canalhice. Sempre era pra contar alguma coisa que não deveria ser contada. Algum segredo escabroso, alguma fofoca maldosa.

O lado B das pessoas aflorando longe do nome. O nome ainda era algo guardado pra ser honrado. Jurava-se pelo nome de coisas e/ou pessoas queridas. Jurava-se por deus, pelas mães, até pela vida, querendo cair morto se o que se dissesse não fosse verdade. Jurava-se muitas vezes em vão, é verdade. Jurava-se muitas vezes em mentiras, mas a culpa daí decorrente era grande.

Normalmente respeitava-se a jura. Quem ouvia e quem dizia.

Alguma coisa no meio do caminho se quebrou. Alguma coisa mudou.

Principalmente nas redes sociais e aplicativos, onde o nome pode ser qualquer um, a coisa mudou.

Ninguém mais jura. Ou, quando o faz, ninguém mais leva em consideração.

Juras, sejam elas de amor, de honra, em nome disso ou daquilo não merecem mais crédito.

No entanto, fotos, selfies, palavras escritas (no caso, digitadas) recebem crédito.

Dizia-se antigamente que o papel aceita tudo. No sentido de poder aceitar mentiras, ilusões, sonhos, enfim, tudo que signifique  compromisso com a verdade ou não.

Hoje acho que o mundo virtual aceita mais ainda.

E aceita mais e melhor quando for pra xingar alguém, pra odiar alguém, pra mentir a respeito de alguém ou alguma coisa.

Não precisa por nome em comentário algum. Mas, se quiser, pode por.

O nome já foi tão vilipendiado, tão trocado, tão esquecido, que o que fica, o que importa mesmo, é a ofensa.

“Não sei quem disse, não verifiquei a veracidade, mas lembro todos os detalhes sórdidos.”

Acho que preferia a carta anônima.

Pelo menos dava trabalho. O trabalho de ir até o correio, selar e enviar. Um certo tempo dispendido que possibilitava pensar bem no que se iria fazer.

Tempos sombrios estes. Já não há por quem jurar. Nem nome a guardar.

 

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