carros, rádio e muitas voltas

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Minha relação com carros não é das mais estreitas. Nem mesmo acho que dá pra ter alguma relação estreita com carro. Não que não tenha com outras máquinas. Morro de saudade de uma radião da Philco 9 faixas onde a gente tentava ouvir a radio Tirana. Bom rádio, aquele. Péssima rádio, aquela.

Voltando.

Meu pai nunca teve carro. Sim, pasmem! Tem gente que passou toda uma vida sem carro e não sentiu falta. Meu pai. Ele dizia: meus amigos têm. E eu tenho muitos amigos. O que era verdade. Teve várias mulheres, vários filhos, vários muita coisa, menos dinheiro e carro.

Voltando.

Meu primeiro carro não foi meu. Foi do namorado. Um Citroen boca de sapo. Bancos de couro, preto. Já era velho em 1968. Bem velho. De vez em quando andava, de vez em quando não. Tornava-se necessário uma conjuminação de fatores, tais como a lua do dia (ou será da noite?), a gasolina no tanque (o dinheiro pra por), a temperatura. Um monte de coisas. Daí, quando dava na telha, ou na rebimboca da parafuseta, ele andava. Devagar, mas andava. Eu andei nele, mas nunca guiei. Aliás, fizemos muitas – e boas – coisas nele. Era espaçoso, confortável, e naquela época de vacas magras, namorar nele era um luxo, se é que me entendem.

Voltando.

O segundo carro era do marido. Aquele mesmo namorado do Citroen. Um fusquinha. Nessa altura eu já tinha carteira de habilitação e guiei um bom tempo aquele fusquinha. Nunca me esqueço de uma manhã em que, havendo feira na rua, maridão pediu pra tirar o carro do quintal. Eu, meio dormida, sem as lentes de contato, avisei: não estou enxergando, vou bater…

Tudo bem, disse ele, mais dormindo ainda do que eu.

Fui lá, tirei o carro, bati, voltei pra cama.

Tirou?

Tirei.

Bateu?

Bati.

E mais não disse nem me foi perguntado.

Voltando.

Os outros foram uma sucessão de fuscas e marajós. Com uma Belina intercalada, ótima pra fazer campanha política, ir buscar e levar material pras gráficas, na época em que havia campanha política feita em gráficas. Na época em que havia política.

Voltando.

Minha relação com carro hoje é mínima. Ainda guio se não puder evitar.

Mas felizmente posso evitar a maior parte do tempo.

Pensando bem, acho que vou pesquisar em brechós aquele radião antigo. Bateu saudade.

 

4 thoughts on “carros, rádio e muitas voltas

  1. Marília

    Tenho a sensação de que “antigamente” não havia tanta necessidade de carro. Meu pai também não tinha e até começar a namorar não andava muito de carro. O transporte público era bom e rápido. Com o passar dos anos a necessidade me aproximou, não de um carro, mas de uma motocicleta. Hoje tenho carro e não posso ficar sem ele, já que trabalho a 40 km da minha casa e o transporte público não funciona. Mas continuo pilotando moto, do jeito que gosto; aquela bm grandona, fora-de-estrada, nos finais de semana.
    Quem presta atenção pensa: Lá vai a coroa doida!
    Adoro!!!

  2. Alziro: esse rádio era objeto de desejo de toda esquerda da época. Um dos poucos – objetos de desejo materiais – que a gente se permitia ter. Outro era a coleção completa do Marx. 😉

    Marília: adoro aquelas motos enormes, Harley. Mas só pra ver de longe. Morro de medo. Mas que todo mundo fica sexy naquilo, lá isso fica! Aqueles coroas com bandana na cabeça e roupa tacheada são o máximo! Mas também só ao longe. Na real fico mesmo com meu coroa discretíssimo que pensa que tacha só serve pra pregar recado em quadro de aviso 😉

  3. Meu Deus, eu tenho um rádio igualzinho a esse da foto! Herança do meu falecido avô! Antes o rádio havia pertencido à mãe dele.

    Quando eu era criança, meu avô ligava o rádio para ouvir um dos irmãos, hoje também já falecido, mas que na época era radioamador em Nova Friburgo. A transmissão era uma maravilha, cheia de interferências. Eu dizia ao meu avô que ele estava ouvindo o Tio E.T.

    Acho que meu rádio nem funciona mais, mas ainda o guardo, junto com uma máquina de escrever que também foi do meu avô. Minha pequena fortuna sentimental.

    Adoro ler o seu blog, mas nunca poderia imaginar que me levaria nessa rápida incursão a um passado querido.

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