uma questão de foco

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Tudo é uma questão de foco.

Eu que o diga. Até o fim do curso primário, baixinha que dava medo, eu nem sabia que não enxergava direito. Da minha carteira até a lousa era um pulo. Foi eu crescer que a vista diminuiu. Ou que eu percebi minha falta de foco.

Nesse caso, foi fácil focar. Uns tantos graus na lente do óculos de míope e tudo ficou ali, no seu devido lugar e tamanho.

Infelizmente, nunca descobri foco pras coisas da vida, desses que reduzem nossos grandes desastres e nossas incontáveis tragédias ao seu diâmetro real. Uma espécie de óculos pra percepção.

Na mocidade, recém mãe, (e eu nem fui mãe tão cedo), tudo que acontecia era o prenúncio do apocalipse. Se o nenê não fazia cocô ou xixi em quantidades e textura consideradas por mim  saudáveis, eu já perdia o sono e a alegria de viver.

Tudo sempre teve seu tamanho aumentado. Alguns dizem ser a ascendência italiana, aquela que costuma exagerar nas tintas mesmo. Outros me diziam que era caso de terapia. Outros, mais sensatos, focados e , por que não dizer, velhos, vinham com a história de que o tempo tudo- ou quase tudo – cura e resolve.

Hoje que eu mesma já tenho experiência de vida ou- por que não dizer ( e quanto me dói fazê-lo!) estou velha também, vejo que arranjei algum tipo de óculos pra minha miopia de alma. O fato é que um montão de coisas já não têm a importância que tinham. E outro montão eu mando pro espaço e saio de perto. Nesse caso o que deixou de ter importância foi meu medo da opinião alheia.

Acho que é uma questão de tempo também. Quando o tempo escasseia você tem que aproveitar melhor. Como o último dia de férias, em que a gente fazia tudo que pensou fazer nos trinta dias anteriores e nem dorme e noite, pro dia durar.

O fato é que eu já durmo muito menos do que antes. E nem mesmo sei se é “pro dia durar”. Acho que é pura insônia.

Nada é tão importante assim. As coisas importantes podem ser contadas nos dedos. De uma mão, talvez.

O resto é o resto. Meio desfocado, atuando ali atrás, na figuração.

Já minha miopia, segundo o oftalmo, vai de bem a melhor. Diminui a olhos vistos.

Adquiro, finalmente, um pouco mais de foco.

Em tudo na vida.

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