curtas e grossas de UK

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Eu já conhecia Londres. E sabia que eles guiam “do outro lado”. Mas uma coisa é saber racionalmente e outra é o pensamento que nos vem de bate pronto, quando você se depara com um cachorro dirigindo um carro e ainda por cima com a cabeça do lado de fora do vidro…Assusta, gente. Assusta. Até o tico e o teco se encontrarem e cair a ficha que o cachorro era o carona. Fora o número de carros que eu vi sem ninguém dirigindo…E nem vou atormentar ninguém com minhas dificuldades pra atravessar as ruas. Nem é porque eu não entenda o que é right e left. A questão é que não sei nem em português a diferença precisa entre direita e esquerda. Sou daquelas que ainda tem que pensar: com que mão eu escrevo mesmo? Ufa!

 

Maridão perde carteira em Dublin. No ônibus. Num sábado, com feriado na segunda. Dois cartões de crédito, carteira de motorista, RG, Dinheiro de 3 países diferentes, somando uma nota razoável pelo menos pra nós, clima de desastre total. Jack, um gente finíssima do B&B em que estávamos garante 95% de chances de encontrar. Garante sem nem pestanejar. Na terça vamos na cia. de ônibus que nada encontra, mas nos manda pra cia. de limpeza. E sabem o que acontece? A carteira estava lá! Intacta e com absolutamente tudo dentro. Demos gritos, batemos palmas, quase urramos de felicidade ante o olhar atônito do funcionário dos achados e perdidos. Um olhar de “como assim, qual a surpresa? De que riem estes loucos? “. Só não digo que era um olhar de pura fleugma britânica porque se disser isso de um irlandês me matam. Digamos que era um olhar indiferente de um povo que está acostumado a ser honesto desde criancinha. E isso quem nos disse depois foram os próprios ingleses. Amei Dublin. Amei os irlandeses. Só não gosto de cerveja mas vou repensar essa questão, prometo.

 

Fomos em cinco milongas em quatro cidades diferentes. Só não fomos em mais porque não estávamos na cidade no dia em que haveria milonga. Mas tem tango em toda parte. Como eu mesma disse em York, uma maravilhosa cidade medieval da Inglaterra: I don’t speak english but I speak tango. E tenho dito. Basta isso. Dancei com escocês, dancei com indiano. Não entendi quase nada do inglês rápido demais do escocês nem do inglês sibilado do indiano, mas ambos conduziam muito bem. É isso, gente. Tango é um dos idiomas mais falados da terra!!

 

Comer é um dos prazeres que tenho na vida. Gosto de comer coisas boas. Gosto da hora do almoço e do jantar, gosto da comida, do ritual, do ato social que é comer em boa companhia. Gosto até de cozinhar. Mas não consegui sentir esse prazer nestas semanas. A única vez em que a coisa chegou perto foi num quiosque no Candem Lock, uma espécie de Vila Madalena mais descolada. O quiosque do Valentino, que estava há só um ano em Londres e fazia e servia uma ótima pasta. Salve Valentino, mio amico genovese!! No resto do tempo a gente ou comprava queijo (amarelos, daquele que se meu médico souber vai estrilar, mas não achei queijo Minas…) e vinho ou comprava algum sanduiche no Pret a manger, ou tentava achar algum restaurante italiano. Jamie Oliver nem pensar. Caro pra caramba.

A única coisa que eu gosto de comer em Londres é barra de cereal. Eu e os esquilos dos parques.

Gosto de brechós. Gosto de sebo de livros. Gosto de antiquários. Gosto de vintage e bric-a-brac. E descobri, maravilhada, que no Reino Unido eles não só também gostam como os brechós são de ONGs de ajuda humanitária, funcionando com voluntários. Amei!!

Voltei com mais colarzinhos ainda pra minha coleção. O efeito colateral é que maridão, que aqui não costuma me acompanhar em brechós, se encantou com os sebos de livros. Resumo da ópera: tivemos que comprar outra mala porque uma das de mão veio recheada de livros. Pensam que maridão é do tipo antiquado? Não, é todo high-tech, tem kindle, micro, e o diabo a quatro. Mas gosta do cheiro do papel. Nem posso reclamar. Eu também gosto. Livro é pra ser lido, cheirado, olhado, acariciado, bom, livro é nosso vício.

 

Agora a nota destoante, o ponto negativo, o único momento em que me senti triste foi ter perdido meu canivete suíço, por culpa minha. Esqueci de expedir e deixei na bolsa. Todos os apitos tocaram e apesar de eu estar na Irlanda, aquele país de gente alegre e educada, o funcionário da alfândega, cheio de pena e com toda gentileza confiscou meu canivete.

E deixou eu entrar no avião com meu hiper-super-ultra guarda-chuva, mais pontudo que qualquer canivete.

E que, é claro, eu esqueci no avião.

 

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