heróis e vilões

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Tá certo que a gente só ouve, de forma interessada, as histórias infantis quando se é criança mesmo.

Pensando bem, acho que hoje nem isso. Mas como eu gosto de histórias, infantis ou não, volta e meia me pego grudada em alguma, escrita, filmada, televisionada, contada, desenhada.

E noto uma mudança. Não nas histórias, em mim. E não a mudança que os anos trazem, desinteressando a gente de coisas fundamentais como bruxas, duendes, casas de doce, magia, enfim, essas coisas que não me parecem menos importantes que a cotação da bolsa, as próximas eleições, a guerra do iraque ou outras histórias adultas que a gente vive, quer queira ou não.

Mas a mudança a que vou me referir diz respeito ao protagonismo das histórias. Aquela clássica divisão entre o bem e o mal, as princesas e as madrastas, aquelas hoje tão politicamente incorretas, de forma que mesmo a palavra – madrasta – é evitada, pra se transformar na segunda (ou terceira, ou quarta, ou qualquer outra) mulher do meu pai.

Quando eu ouvi pela primeira vez a história da chapeuzinho, eu quis ser a chapeuzinho. Até porque para mim, ter a permissão de minha mãe de sair sozinha pela floresta pra levar seja o que for para minha avó já seria um avanço considerável. Eu não tinha permissão nem de visitar amiguinhas no outro quarteirão…

Depois com o passar dos anos, fui vendo que aquela chapeuzinho era muito babaca mesmo. Não  distinguia um lobo da sua avó, nem mesmo chegava a estranhar bichos falantes pela floresta. Fora a violência explícita da historia. Depois de pouco tempo eu morria de pena do lobo e queria ter a arma do caçador pra acabar com todo mundo.

A Branca de neve: muito bonitinha e tal. Quem não quis jamais ter a pele sem manchas, branca como a neve? E sete anõezinhos pra cuidar da gente, com abnegação? Nem precisavam ser anões ( ainda posso falar anões?) nem mesmo sete. Hoje em dia basta um gostando da gente e já está bom. Mesmo que esse um seja um cachorro. Ou gato. Em qualquer sentido das palavras.

Bom, mas continuando, a Branca de neve aquela também era chata. E boba. Já a madrasta estava lutando por seu reino da beleza e de herança. Não, eu nunca quis ser a madrasta, mas hoje entendo perfeitamente o ponto de vista dela, embora não compartilhe. Ela pelo menos era uma pessoa ativa e guerreira. Lutando pelo que queria e não dormindo no ponto por ficar aceitando maçãs na porta. Também acho muito mais moderna a atitude de ir a luta ao invés de depender de beijo de príncipe. Não nos esqueçamos que a madrasta era viúva com filhas pra cuidar, certo? Ou essa é a história da cinderela? Confundo as histórias e as madrastas.

Enfim, o negócio é que madrasta naquela época era tudo igual, sempre as vilãs, e mocinhas também eram todas iguais, sempre dependentes, submissas e babacas. Difícil a identificação com quaisquer delas.

Por isso hoje eu continuo gostando de histórias infantis e me identifico sim, com meus personagens prediletos. Tudo ecologicamente correto.

Meus heróis são o lobo, o coelho da Alice, a tartaruga e o gato de botas.

Só a galinha dos ovos de ouro acho meio sofrida pra eu me identificar.

Eu que já tive dois filhos por parto natural, fico aqui imaginando com meus botões, o que devia ser botar ovos de ouro…

 

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