cheiros de memória

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Vidros

 

Eu tenho lembranças de imagens, lembranças de músicas, de vozes e de rostos, lembranças de sensações, de felicidades e de micos, de medos e de alívios. Mas o tipo de lembrança que mais me fascina porque se instala sem nenhuma força de minha  parte, sem motivo aparente para se fixar, essa lembrança é a olfativa.

Quando paro pra pensar, muita, mas muita coisa mesmo que me vem à memória, vem com cheiro.

Pessoas vem com cheiro. Minha avó cheirava a flanela nova. A tinta de fixação em tecido, talvez por conta de seu eterno crochê, vestida com roupas de flanela.

Meu pai tinha vários cheiros. O de que me lembro e adorava era Ácqua Velva, que ele usava no pós-barba. Havia também o de cigarro, que lhe amarelava os bigodes e me enjoava.

A praia na qual conheci meu namorado e hoje marido, e, portanto, aquele começo de namoro aos sobressaltos e tímido, vem sempre acompanhado do cheiro de lampião e vela. Não havia luz na casa.

A adolescência e os adolescentes têm cheiro de Lancaster e Rastro. Isso quando éramos adolescentes. Hoje não existe mais Lancaster – acho- e o Aparício morreu e com ele o Rastro, tão gostoso.

Havia uma professora particular de matemática. Como as aulas eram particulares, ela se debruçava sobre meu caderno, bem perto de mim. Cheirava a alho.

Eu odeio matemática e odeio alho.

E havia também o cheiro de onze horas e de cravos. Cheiro de morte. No cemitério ao qual eu ia, levada pela minha mãe em datas específicas, ficava por ali, passeando entre túmulos, rodeada por esses cheiros. Cheiro de onze-horas e cravos.

E o cheiro de infância: definitivamente, o cheiro de chuva molhando a terra.

Lembro também do cheiro da casa de uma tia. Cheiro de escuro, de proibição, de medo de levar bronca por tudo e por qualquer coisa. Tia sem filhos, casa sem alegria. Cheiro de feijão e arroz rançosos. Cheiro de gordura velha.

Cheiro da escola, do dia em que os cadernos vinham pra serem encapados, cheiro de papel novo. Delícia.

Pois é, memórias de cheiros, cheiros de memórias.

Quais serão os cheiros dos outros? Quais serão os cheiros das suas memórias?

Diz aí…

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