cachorros de Perdizes

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Que cachorro lindo! Fico sempre namorando os cachorros de Perdizes!!

Olho para trás, está lá a senhora em uniforme de empregada doméstica, olhando embevecida pra minha cachorra maior.

Minha senhora, em primeiro lugar, são cachorras e não cachorros. Sei que daí não dá pra ver muito bem, mas olhe só a maneira feminina de andar, a elegância de fazer xixi, somente em áreas com grama, a docilidade e as boas maneiras. Cachorras, minha senhora.

Não são cachorras de Perdizes, embora estejam aqui. São cachorras dos cafundós do Jardim das Palmas, largadas na rua, filhotinhas, ao deus dará. Não sei se deus deu, mas eu dei. Casa, abrigo e carinho. Perdizes só nos últimos meses. São cachorras como eu, já entradas em anos, só querendo um pouco de carinho, de comida, de abrigo, de amor. Se é em Perdizes ou nas Palmas não importa, nem pra elas nem pra mim. A gente é ser do mundo.  Ia dizer ser humano sem fronteira, mas elas não são seres humanos. Embora melhor que um monte deles, não são humanas. Não guerreiam por poder, por fronteiras, por religião. Só rosnam, mostram os dentes pra mostrar a força. Machucar só em último caso. Míssil nem pensar.

São bonitas as duas. Uma, a que a senhora chamou de linda é de inteligência limitada. Não é boa em resolver nenhum problema, podendo ficar horas enroscada em árvores sem conseguir dar a volta por cima, no caso, a volta pelo lado. Mas é um amor de companhia. Capaz também de ficar horas te velando se você estiver de cama, febril.

A outra, cega e surda, ainda tem um bom faro. Está toda grisalha, os pelos curtos e duros bem brancos. Como os meus, mas eu ainda tenho a Loreal. Sempre teremos a Loreal ou Paris, dependendo da grana.

Como eu ainda tenho visão e boas pernas, sou eu quem as levo pelas ruas de Perdizes.

Ou quaisquer outras. A gente não é bairrista.

Talvez a que a senhora achou linda seja. Porque quando a senhora se abaixou para afagá-la, ela latiu alto.

Uma avaliação psicológica do preconceito humano.

Ou uma pura reação de medo.

Tem ser humano que também é assim: com medo, late.

 

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