conversando com meus mortos

Standard

As pessoas que gostam da gente gostam também de imaginar futuros para nós. Os melhores futuros, na opinião dessas pessoas, é claro. Era assim com meus pais, com minha avó.

Não me lembro de alguém me perguntar ou dar valor para o que eu mesma desejasse.

Ganhar prêmio Nobel de literatura? Ser cabeleireira? Ser freira enfermeira só pra usar aquele chapéu incrível da noviça rebelde?

Tá legal. Eu queria para meu futuro umas coisas esquisitas. Meu pai dizia que literatura não era emprego. Minha mãe dizia que cabeleireira não dava dinheiro e minha avó dizia que eu, definitivamente, era uma estrepe e não tinha a menor vocação pra freira.

Mal sabiam, eles, inocentes, que literatura pode sim ser emprego, que cabeleireira pode sim dar um bom dinheiro e que freira, bom, deixa pra lá, acho que nunca levei jeito mesmo.

Eles todos morreram antes de me ver fazendo coisas que queriam muito que eu fizesse.

Eu não acredito em vida após a morte. Nem desacredito. Mas como eu converso bastante com meus mortos, quer eles respondam ou não, (do mesmo jeito que em vida eles conversavam comigo, mesmo eu não respondendo) vou continuar conversando com eles.

Vó, eu aprendi a fazer crochê. Não do jeito que você fazia, todo branquinho e cheio de detalhes, com agulha fina e linha mais fina ainda. Uso barbante, linhas grossas e coloridas e aprendi a fazer uma coisa que você não sabia: roupas! Faço bem. Como você, fico de noite assistindo TV e mexendo as mãos freneticamente. Você teria orgulho, vó.

Pai, eu aprendi a dançar tango. Conheço todos os grandes cantores e orquestras. Vou a milongas toda semana , a Buenos Aires todo ano e já dancei tango em vários países por aí. Continuo escrevendo, pai, e numa coisa você tinha razão. Não dá emprego. Não pra mim. Mas a essa altura do campeonato, aposentada, não busco mais emprego. Quero escrever. Pra mim e pra você, pra uns poucos amigos, pra quem quiser e gostar. Sem dinheiro na jogada. O que é uma lástima, eu e você concordamos hoje.

Mãe, aprendi a cozinhar!! Surpreendente, não é? Você que dizia que não sabia o que seria do meu futuro, mulher que não sabia fazer nem café na cozinha. Faço um café primoroso. Moo o grão num moinho que foi da avó do meu marido, de uns cem anos, acrescento canela ao pó moído e faço um expresso de dar água na boca. E aprendi a cozinhar de um jeito diferente do seu, vegetariano, sem gordura, bacon jamais, sal bem pouco. Com isso tenho evitado o mal familiar, da pressão alta. Só ali, nas comidinhas. São até elogiadas, mãe. Você talvez achasse sensaboronas, você que entupia a comida de bacon, de carnes defumadas, de azeitonas temperadas. Mas existem jeitos e jeitos de cozinhar. Como existem jeitos e jeitos de ser. Como nós duas. A gente sempre foi diferente, mas no fundo, bem iguais.

Pois não é que me pego, assim de vez em quando, imaginando futuros pros meus filhos?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *