meu nariz

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Antigamente ninguém falava – nem fazia – tanta plástica como hoje.

Mas a de nariz era feita. As pessoas queriam narizes arrebitados.

Influência da Narizinho, da Audrey Hepburn, sei lá.

O meu nunca foi arrebitado. Não obstante nunca tive dele a menor reclamação. Sempre foi um nariz honesto, funcional, cheirando o que devia cheirar, se metendo onde devia se meter, de preferência pouco, que meter o nariz por aí não é minha praia.

Um nariz que só não pareceu grande quando estive na Itália. Encontrou similares.

Um nariz que nunca comprometeu. Mas também houve uma época em que eu gostaria que ele fosse arrebitado. Eu tinha uns oito anos e passava as aulas com um durex nele, de forma que ele arrebitasse. Indução e força de vontade.

Não deu certo. As professoras me olhavam feio, os colegas riam e ele nunca mudou sua forma.

Um nariz de personalidade. Com atitude, desde a mais tenra infância.

Um nariz que cedo começou a trabalhar, carregando óculos.

E que com a idade trabalhou mais ainda, espirrando histericamente toda manhã. Rinite.

Afora isso, um bom companheiro.

Tanto que, em corrida desenfreada querendo evitar que minha cachorra cega e fujona atravessasse a rua, ele chegou na minha frente no degrau da calçada.

Quis me poupar de traumas maiores, o meu fiel companheiro.

Agora está aqui, onde sempre esteve, qual Minas Gerais, todo engessado, esparadrapado, roxo e inchado.

Quebrado sim. Mas fiel até o último momento.

Já os óculos, esses voaram longe, assim que viram a calçada se aproximando.

Nariz: alguém com que se pode contar, sempre na vanguarda dos acontecimentos…

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