calos

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Tenho um monte. Desde criancinha.

É a síndrome da falta de grana.

Existe um provérbio que diz que pé de pobre não tem número. Foi verdade pra mim. O primário inteiro, com a possibilidade nada atraente de pedir de natal um sapato, sabendo que tinha de ser o mesmo da escola, ou seja, preto no primário e marrom no ginário, não ajudou muito na estética dos meus pés.

Ter pés que foram crescendo muito e proporcionalmente mais do que eu merecia, pela altura, também não contribuiu, não sei se me entendem.  Eu devia calçar 37 ou medir 1,80. Calço 39 e meço 1,65. Um descompasso, já que falamos de pés.

Eu herdava sapatos de criança. Infelizmente minha cunhada, doadora, era mignon. Daí os calos.

Com a adolescência e os pés cada vez maiores, veio a vergonha de pés grandes.  Não sei se alguém leu “a pata da gazela”, do Alencar, mas eu li. E traumatizei.  Adolescente traumatiza facinho, facinho. Adolescente tímida muito mais.

Aí decidi que meus pés tinham que ficar no 38, mesmo quando eles, libertários, negavam a opressão. Diabos de pés revolucionários! Eu fui mais eu. Quem manda nos meus pés sou eu. Não existe a figura do general de pijamas? Pois eu era uma espécie de general de pantufas. Pantufas pequenininhas.  

Mais calos.

E assim vida afora.

Eu fui daquelas que sempre achou que sapato “laceia”. Que adorava sapatos velhos, pois aí eles se ajustavam melhor aos pés.

Mas veio o tango e saltos altos. Sapatos argentinos, tão logo pude comprar in loco.

E só este ano, numa das muitas viagens pra Buenos Aires, uma vendedora me comenta que a numeração argentina não é exatamente a mesma daqui. Que eu devia comprar um número maior.

Tarde piaste, porteña!  Foi a melhor coisa que já me aconteceu: os sapatos de repente, nos novos números, ficaram maravilhosos de cara! Acho que até meu tango melhorou.

Adeus calos!

Só falta avisar a eles, como diria o Garrincha. Calos, como rugas, quando chegam, ficam.

3 thoughts on “calos

  1. Te comprendo mas de lo que crees. Odio mis pies, de hecho estaba escribiendo hace unos dias un post sobre mi juanete del pie derecho.
    Tener pie grande, puede ser una tortura.
    Un beso

  2. Não suporto sapato novo nem número errado, por isso sempre preferi havaianas. Depois de um acidente de carro que modificou a mecânica e a anatomia do meu pé direito, tenho ainda menos paciência com sapatos que me apertam. Comprei todas as alpargatas do meu número que encontrei nesse início de verão italiano. :)

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