tragédia

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Era uma vez uma família de Minas. De algum lugar do interior de Minas quando isso significava “muito” interior.

Marido, mulher, um casal de filhos.

Vamos chamar de Fidelina a mãe, Tibúrcio o marido e Mário e Maria os filhos.

Historinha simples com a simplicidade das tragédias de antigamente.

Tibúrcio veio pra São Paulo onde foi ser pedreiro. Bom pedreiro, depois de muito tempo construiu a própria casa. Casa grande, três quartos, sala (nunca usada, só pras visitas de cerimônia), cozinha com fogão a gás e de lenha, a geladeira de madeira onde se comprava o gelo pra abastecer e a serragem pra manter, na varanda dos fundos.

O quintal com galinheiro e canil. E horta e quarador ( lugar onde se punham as roupas pra branquear ao sol). Bem aos fundos, outra casinha menor. Era comum na época. Uma casinha pra alugar e garantir a velhice. Bons tempos em que a velhice podia ter alguma garantia!

Até aí, tudo parece um mar de rosas.

Filhos cresceram, arranjaram empregos. Empregos simples, um pouco só melhor do que o do pai, nenhum dos dois passou do ginásio. Maria arrumou um noivo. Noivado longo, muito longo. Quando , depois de alguns anos, o noivo a deixou pra casar com outra, Maria tomou formicida com guaraná.

Não morreu, apesar dos muitos dias no hospital.

Pra sempre só a lembrança amarga do noivo desnaturado e a gastrite.

Mário era de pouca conversa. Gostava mesmo era de carros mas nunca teve dinheiro pra ter um.

E gostava de sonhar de olhos abertos, movido a erva.

Até que um dia resolveu passar à ação.

Foi preso com o carro roubado.

Assim termina minha estorinha. Que não é ficção, que eu não sei escrever ficção.

Só os nomes são outros.

Conheci a antiga casa de detenção visitando Mário, acompanhando sua mãe.

Conheci a amargura do amor acompanhando Maria em suas recordações do noivo e da tentativa de suicídio.

Ficaram todos no tempo, perdidos no passado. Talvez alguém ainda esteja vivo. Talvez não.

Só uma historinha da cidade grande. Uma tragédia simples e cotidiana.

 

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