fases

Standard

Quando procurávamos casa pra comprar, há 33 anos atrás, nem precisamos ir longe. Só umas 3 quadras de onde já morávamos, em casa alugada.

A casa era feia. Pintada de azul claro e azul escuro, mais parecia uma piscina. A terra do pouco quintal era vermelha. Terra de Átila, aquele que por onde andava a grama não crescia.

Nada havia crescido naquela terra vermelha de terraplanagem. A casa, no alto do morro, sem verde em nenhum lugar.

Um ano depois e cinco caminhões de terra, a coisa melhorou. Foi uma quebradeira só pra acabar com os cimentados e transformar em área verde.

Seis casas na rua de apenas uma quadra. Quatro já estavam habitadas quando a gente se mudou.

Primeiro dia, pedi água na vizinha, pra poder limpar minimamente. A água não estava ligada.

“péra um pouquinho. Segura minha nenê que eu vou te passar a mangueira.”

Assim conheci a Calula, nenê de sete meses, filha do meio da vizinha. Hoje casada e com dois filhos.

A vizinha do lado, japonesa. Nascida no Japão, ela e o marido. Falavam com sotaque ainda. Discretos, amigáveis, educados a mais não poder.  Mecânico ele, logo conheci seus serviços. Um mês depois de mudar, o irmão dele bateu no meu carro, parado no semáforo. Tranquilo, com calma nipônica, :”não se preocupe, tenho oficina mecânica com meu irmão. Conserto já”.

Consertou.

Os da outra esquina, ofereceram seus serviços de colocação de Box no banheiro. Usei.

Da quarta casa, só cumprimentavam amistosos. Casal de velhinhos, um filho excepcional,  dia todo na janela, dando tchau a quem passasse.

Na frente da minha casa, ninguém. Casa pra alugar, vazia.

Isso há 33 anos. Aí tive meus filhos, meus vizinhos tiveram os seus, os netos de muitos deles já estão grandes.

O casal de velhinhos morreu. Não ao mesmo tempo. Os filhos ainda moraram juntos uns tempos, depois venderam a casa. Não conheço os donos nem por cumprimentos.

Os do Box do banheiro mudaram de ramo e de casa. Tampouco conheço quem comprou. Sei que têm um carro vermelho e só.

Aqui na frente a casa foi alugada, depois vendida, depois vendida de novo, sem ninguém mudar. Hoje está sendo reformada. Vazia, triste, parece ponto micado.

A mãe da Calula continua. E os japoneses e nós.

Por quanto tempo não sei. Todos nossos filhos saíram de casa, alçando vôo próprio. Estamos os três casais na rua, amigos de mais de trinta anos, sozinhos.

Os novos casais já não pedem água como eu há trinta anos, nem cigarros de madrugada como eu fazia quando fumava, pedindo ao vizinho da frente, solidário no vício, nem trocam plantas entre si.

Não  sei se nós mudamos ou a vizinhança.

Foi uma fase. Que passou.

3 thoughts on “fases

  1. Vizinhos…
    Trato bem e sou gentil. A vizinha do terceiro andar pede queijo, pimentão e chips (aqueles triângulos de milho) para fazer tacos mexicanos. Na porta, eu pergunto: “E quem disse que eu tenho?” Viro e vou na cozinha buscar. Quando volto ela está no meio da sala conversando com a Eloá e diz: “Ali caberia um sofazinho de dois lugares…” A Eloá sorri enquanto ensina como preparar os tacos. No dia seguinte ela manda um sofá que cabe direitinho no lugar.
    Vizinhos…

  2. Allan: precisa me apresentar essa vizinha…estou procurando sofás feito desesperada e com dificuldades por conta das medidas. Isso de sofá é uma espécie de rito de passagem. Minha filha, que morava comigo ainda, comprou casa e mudou. Agora somos só nós dois e finalmente pretendo ter o sofá que sonhei, sem pensar em crianças. E está dificílimo de achar! O que nem é de todo ruim, porque assim eu me ocupo e deixo de pensar que minhas crianças – aqueles cavalões de mais de trinta- já não moram mais comigo ..snif 😉

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *