de pingas, velas e capelas

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Esse negócio de religião é complicado. Porque as pessoas religiosas geralmente acham que qualquer fuga ao cerimonial é desrespeito. Só que tem as não religiosas ou as distraídas. Além das que não estão nem aí, é claro.

Cresci  vendo meu pai pegar pinga de exu em encruzilhada. Ele gostava de pinga. Já o exu não sei. Ele, meu pai, não o exu, achava um desperdício alguém botar pinga fora, assim, pra espírito. Ele simplesmente pegava, se gostava da marca, e tomava. Não obstante, carregava na carteira um – desculpem os ambientalistas e congêneres- pé de coelho pra dar sorte e um santinho de são cypriano, de quem nunca ouvi falar. E acendia em casa, de vez em quando, uns incensos que hoje eu vejo serem  vendidos em lojas de umbanda.

Ecletismo religioso ou pragmatismo, sei lá. Esse era meu pai e, entre os vários defeitos que tinha, não coloco nenhum desses aí.

Quando eu namorava e passava as férias no barraco que antecedeu a casa de praia de minha sogra ( na época só a mãe do meu namorado), não tínhamos luz. Então saíamos e pegávamos as velas e tocos de velas que eram postas na praia pra iemanjá. No fim do ano costumávamos fazer um estoque para o ano inteiro. Não pegávamos ANTES de serem doadas e postas ao mar. Pegávamos depois, as que o mar trazia de volta. A gente tinha uma certa ética.

Certa vez, ainda na praia, debaixo daquele sol de quarenta graus, encontramos uma capelinha perdida no mato. Entramos, todas as amigas e ficamos lá, admirando a construção, pequena como uma casa de bonecas, mas fresca. Fomos escorraçados de lá aos berros por um morador vizinho que disse que desrespeitávamos o lugar com nossos bikinis. Acho que o deus dele não curte corpo. Interessante um criador querer que sua criação fique coberta e escondida. Enfim…

Já fui a terreiros ouvir música ( toco congas), já fui a igrejas católicas, batistas, evangélicas. Já fui a velórios e missas. Nunca sei direito quando levantar, quando sentar, o que dizer nem o que cantar. Mas percebo que existem em todas elas um montão de rituais. Parece que o fato de alguma coisa exigir rituais torna essa coisa mais valiosa.

Estranha cabeça a do ser humano.

Minha avó ensinou-me a rezar em italiano, ajoelhada ao lado da cama. Eu não entendia o que dizia, mas gostava da minha avó e fazia. Ela não ia a igrejas. Dizia que a igreja era onde estivesse a fé. Ela parecia ter bastante fé.

Eu? Bom, eu tinha uma fé enorme nela.

Depois que ela morreu, só muito tempo depois, consegui passar essa fé que eu tinha nela para duas pessoas. Ambas têm o poder de me minorar as dores. Da alma ou do corpo.

Em toda minha vida não consegui criar deuses pra mim.

Talvez eu devesse tentar criar uma avó.

Minha santa Marianina.

 

2 thoughts on “de pingas, velas e capelas

  1. Estudei em escola de freiras msmoe sem ser batizado (acho que na época se escrevia baptizado). Vou a igreja ou templo de qualquer religião por vários motivos: admirar a arquitetura, a arte, a cultura; em cerimônias de amigos ou parentes, etc. Só não tenho paciência quando tentam me converter. Nem em calendários eu acredito muito (viu o dos Maias?), mas aproveito o clima que eles (os calendários, não os Maias) criam:

    Feliz Ano novo!

    🙂

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