brinquedos

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Poucas vezes tive algum brinquedo, desses pra criança mesmo, comprados.

Mas tive alguns. Inesquecíveis.

Tive uma boneca vestida de noiva. Não gostei. Nunca brinquei com ela.

A boneca com a qual brinquei mesmo ganhei quando meu irmão mais velho se casou. Eu tinha oito anos e minha cunhada, vinda do Uruguay onde meu irmão estudara, me trouxe uma boneca que havia sido dela. Toda articulada, de porcelana, com o nariz descascado e com um acessório importantíssimo: um guarda-roupa de madeira cheio de roupinhas de tricô, feitas pela mãe dela. Quanto eu não brinquei de teatro e camarim com aquela boneca! Nada de filhinha e mamãe, meu negócio era teatro.  Até o dia em que minha cunhada encontrou alguém que lhe disse que restauraria a boneca e nunca mais devolveu. Ela perdeu a boneca de infância, eu minha atriz principal.

Depois, certa noite, meu pai – que era leiloeiro – me trouxe um cachorro de pelo com rodinhas nos pés. Era um salsicha. Lindo! Também antigo. Eu não gostei muito do pelo e resolvi fazer uma tosa. Ele nunca se recuperou e o pelo não cresceu, é claro. Fiquei muitos anos com o cachorrinho pelado. Gostei mais assim. Até hoje, com cachorras de verdade em casa, gosto mais dos desvalidos, dos vira-latas mequetrefes.

Tive um “pequeno engenheiro” fantástico e um fogão cheio de panelinhas. Eu não gostava dele mas minhas amiguinhas sim. Daí elas vinham em casa e iam correndo brincar com ele, fazendo comidinhas de grama e barro. Eu ficava de lado, com o pequeno engenheiro, fazendo cidades.

Também curtia muito fazer castelos de cartas. E brincar com os botões coloridos que minha mãe guardava. E pintar com água e dedo, no chão do quintal em dias de sol. E ler.

Depois que descobri a leitura, meu brinquedo favorito passou a ser um livro.

Por isso, no dia das crianças que vem aí, eu aceito ganhar presentes praquela criança que me habita. Aquela criança que ainda sente muito medo de médico, de injeção, que não pode ver filme de terror à noite, que se pudesse comeria todos os bombons da caixa, que não gosta de gritos e tem vergonha de um monte de coisas. Enfim, aquele lado de dentro, infantil, que ainda e – não tenho dúvidas – sempre existirá.

E meu presente favorito, meu brinquedo, minha companhia, meu fabricante de cidades, de viagens, de teatros e personagens, sempre será o livro.

E vocês? Ainda lembram dos brinquedos de criança?

One thought on “brinquedos

  1. Meu pai era daqueles malucos que enchiam os filhos de brinquedos. O forte apache era o meu preferido, mas também nunca brinquei com bonecas.

    🙂

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