minha aliança

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Sou do tempo em que se usava aliança. Em que se casava de véu e grinalda. Em que se ficava noivo.

Eu fiquei noiva. Um ano antes de casar lá estava, no meu dedo, uma aliança.

Na realidade, foi oportunismo puro. Meus pais não me deixavam viajar com o namorado nem passar noites fora. Aí ficar noiva foi uma forma de álibi. Noivo é quase casado. Noivo pode.

E a gente fez isso. Comprou umas alianças enormes e botou no dedo. E dissemos em casa: olha, estamos noivos. Comendo sanduíche de mortadela na mesa da cozinha. Não foi um noivado chic.

Quando casamos, só mudei de mão a aliança.

Certo dia, levantando a janela do quarto, ela caiu na minha mão. Bem em cima da aliança. O que salvou meu dedo, mas não a aliança que ficou pra sempre meio quadrada, amassada.

E eu engordei com o casamento. De quase anoréxica, dez quilos depois fiquei normal. Mas a aliança ficou ali, no anular, pra sempre presa.

Até eu começar a tocar percussão. No início tocava as congas como se não houvesse amanhã. Fazia mais barulho que uma nação inteira de pigmeus nos gibis do Fantasma. Batia com tanta força que não foram poucas as vezes em que os dedos sangraram em cima das congas.

O jeito foi tirar a aliança. Como, se não saía do dedo?

Dentista. Sim, aquele cara que só me fazia abrir a boca e tremer nas bases com o barulho do motor, desta vez foi convocado pra abrir não alguma obturação mas o próprio anel, com o motor.

Deu certo e hoje a coisa está assim: por uma questão afetiva, minha aliança está numa caixinha, aos pedaços.

O casamento vai bem, obrigado, e o maridão, por uma questão de solidariedade, também guardou a dele, inteira.

Um dia a gente ainda passa nos cobres esses restinhos simbólicos.

Porque os anos passaram, quase quarenta, mas meu pragmatismo continua.

3 thoughts on “minha aliança

  1. Quem disse “vão-se os dedos…”?

    Saiba que a aliança pode ser consertada e nem custa tanto. Fazer uma nova dando a velha como parte do pagamento pode ser outra opção. Eu tiro a aliança assim que chego em casa, antes de ir para a piscina ou à praia. Mas a minha é diferente e contar a história dela até dá um post. Obrigado pela idéia! 😀

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