máquinas-caixote

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Durante muito tempo achei que, em viagens, melhor não tirar fotos. Achava que, se a gente esquece, é que não significou muito.

Ledo engano. Mas precisei passar dos sessenta pra descobrir.

A gente esquece praticamente tudo. De bom e de ruim. Então, melhor tirar fotografias, pelo menos das coisas boas.

Sempre tive máquinas fotográficas. E quase nunca fotografei.

Contrassenso? Não, madrinha fotógrafa.

Minha madrinha tinha um estúdio fotográfico. Daqueles de antigamente, cheio de cenários, de roupas até, pra produção de fotos de casamentos, batizados, formaturas. Me divertia  horrores lá, cada vez que íamos, eu e meus pais, às suas festas.

E a cada dois ou três anos ela me dava de presente uma máquina fotográfica. Acho que ela esquecia que já tinha dado e dava outra.

Bom, a família inteira ficava com as máquinas.

Por que? Porque eu usava óculos.

Quem já teve máquina fotográfica de caixote e usou óculos sabe bem do que falo. Os óculos batem  no visor,  a máquina treme, o nariz machuca.

Pode-se tirar os  óculos pra fotografar, é verdade. Daí a foto desfoca pra maioria dos mortais, menos pra nós, míopes.

Bom, é um problema que eu nunca tinha resolvido. Ou melhor, eu dava meu jeitinho. Viajava com maridão e dava uma de diretor de arte: dizia a ele o que fotografar, em qual ângulo, com qual luz. Pra mim. Mas como ghost fotógrafo, ele continua sendo um ótimo maridão. As fotos nunca saiam exatamente como eu queria…

Até a descoberta do I-phone. Paixão à primeira vista. Nem precisa encostar na cara, nem precisa se preocupar com foco, nem precisa achar o ângulo ideal. É só ir tirando. Ficou ruim? Joga fora depois.

Descartável.  Como minha memória. O que fica? Fica a saudade. Das madrinhas, das máquinas-caixote, dos tempos em que eu era capaz de lembrar de memória das coisas, sem precisar de fotos.  Lembrar do que, afinal, ficou: o gosto pelas viagens e a importância de madrinhas divertidas na vida da gente.

Pois não é?

Pai e mãe, fotografados, retocados e pintados a mão. Meados do século passado.

4 thoughts on “máquinas-caixote

  1. Heladio

    Maray! Lembro de vcs nos sábados dançando tango, nos encontros da rua coração da europa, com César e turma.
    Fiz arquitetura mas trabalho com video, animação, design e fotografia. Como paulistano, passeamos muito pelo Pq. Ibirapuera e Congonhas e meu pai gostava de fotografar paisagens e a família. Peguei o gosto, mas não dá sair sempre pra fotografar. Acho que é o que mais gosto de fazer.
    Abraços!

  2. Maray,
    Antes de mais nada, linda a foto de seus pais. Um lindo casal, independentemente de retoques. Eu gosto de fotografar, mas não sou muito bom. Tiro muitas fotos de plantas, de suas flores, principalmente orquídeas, e de animais. Só que estes têm a mania de se mexerem e me estragam a foto. Muitas vezes, nas andanças pelo sítio, levo uma máquina e consigo alguns flagrantes felizes, como quando consegui fotografar um sagui albino, capivaras na beira do lago, seriemas, etc. Hoje em dia as fotos são bem mais fáceis do que nos tempos de minha primeira Kapsa (caixão). Acabou-se o horror dos filmes bobinados, que as óticas levavam três dias para revelar as fotos. Agora, tiram-se as fotos, quantas quisermos, descarregamos no computador (na hora), selecionamos as que queremos e apagamos as que não gostamos, e enviamos quantas cópias quisermos. Só tenho pena do pessoal que ganhava a vida, nas óticas, revelando filmes. Tiveram de mudar de vida. Bom, se é que ainda estão vivos.
    Abração.

  3. Heládio: a gente continua no tango. É amor eterno. E recomecei a fotografar agora, no I-phone. Cabe em qualquer lugar, é rápido, a resolução é ótima, pelo menos pra mim. Como o tango: tem em todo lugar do mundo, dança-se em qualquer salão e a resolução é a melhor possível… ;)Beijos!

    J.F.: nunca consegui fotografar bichos, nem mesmo minhas cachorras. Elas vêm me lamber a cara e sai tudo desfocado. Gosto de casas, de grafittis pelos muros. Daquilo que o homem deixa pra trás de si,menos a sujeira. Embora até a sujeira, se o cara for bom, dê boas fotos. Mas eu não sou boa. E muito menos gosto de sujeira 😉 Beijão!

  4. Só não gosto de ser fotografado, mas sempre tirei muitas fotos. Quase virei profissional, uma oportunidde que esqueci de explorar.

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