do tempo em que eu ia ao aeroporto olhar avião do lado de fora

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Recomecei a andar- que língua a nossa!-  em avião há oito anos. Depois de ter controlada minha claustrofobia. Depois do filhão ter se mudado pra longe de mim milhares de quilômetros. Mãe é mãe, claustrofóbica ou não.

Mas minha relação com avião vem de muito longe.

Eu nem sabia direito o que era avião até uns cinco anos. Conhecia de figurinhas, digamos assim, nos jornais, nas revistas e muito distante, muito distante mesmo no céu da Lapa, se é que existe bairro com céu particular.

Daí me mudei para o Brooklin. Fez toda a diferença, no quesito conhecimento aéreo. Minha casa era rota de avião subindo ou descendo de Congonhas. Um pouco antes dos aviões subirem naquele quadriculado da ponta da pista ( ou baixarem? Ou dos dois?) eles passavam por cima de casa.

Vários tipos de avião. Eu gostava mesmo era dos helicópteros, raros, barulhentos e mais visíveis devido a pouca altura em que voavam.

Para ver os grandões, da Panair ou internacionais, a gente ia a Congonhas.

Muita gente ia. Depois do almoço, quando minha mãe ia lavar a louça, naquele mundo de machistas e preguiçosos de então, ela acabava mandando a gente ir ao aeroporto. Tenho a impressão que ela gostaria de mandar pra outro lugar, mas jamais ouvi minha mãe falar qualquer palavrão. Ela queria se ver livre daquela turba pra poder limpar melhor a bagunça do almoço.

A gente ia. Uma caravana, se não me falha a memória. Desde minha avó, reumática e artritosa, andando a zero por hora, até eu, a mais novinha, insistindo pras pessoas andarem mais rápido, pra eu ver os aviões. Mais pai, tios, irmãos.

Só não ia cachorro porque nunca pude ter cachorro em criança e o bicho que me deixaram ter andava mais devagar que minha avó: uma tartaruga maldita, chamada Raquel.

Lá chegando a gente subia ao primeiro andar. Onde havia também um restaurante e um incrível salão de baile, palco de infinitas festas de formatura. Das janelas envidraçadas a gente passava a tarde olhando avião subir e descer. Eu olhava com  inveja aqueles seres especiais que desciam do avião. Sim, porque naquela época, a descida era feita com escadinha saindo da porta do avião. E a mulherada desfilava roupa e chapéu, homens sempre de terno e gravata.

Depois , aos doze, fui enfim conhecer avião por dentro. Eu me tornei um daqueles seres especiais, sem chapéu nem salto alto, mas ansiosa que só.

Rumo a Montevidéo, aquela cidade onde às vezes sonho em fazer a última e definitiva viagem.

Mas isso é outra história. E outra lembrança.

3 thoughts on “do tempo em que eu ia ao aeroporto olhar avião do lado de fora

  1. Uma coisa em que sempre penso quando o avião em que estou decola é que a gente ficou blasé e se acostumou, assim como não vai mais ao aeroporto ver avião pelo lado de fora — mas um avião é uma coisa fascinante, uma maravilha única e merecedora de todo o espanto, e que coisa fantástica é fazer um treco tão mais pesado que o ar voar.

  2. Maray, que lembrança linda: ver aviões no aeroporto de Congonhas. Os cariocas riam dos paulistanos, por não termos praias, e diziam que diversão de paulista (paulistano) era ver avião no aeroporto e ir à pizzaria. Pois era verdade! Hoje, nos tiraram a visão dos aviões em Congonhas e só nos sobrou a pizza. Paciência! Agora, o lamentável em sua adorável e bem humorada crônica (com direito a foto do Super-Constelation da Panair) é a discriminação à coitadinha da Raquel. Você devia levá-la para apreciar os aviões. Afinal, na época, até que eles eram bem mais lentos que hoje em dia.
    Abração.

  3. A pista muda a cabeceira de acordo com o vento; a direção para decolar e pousar depende disso, o vento. Sei disso porque eu sou – era? – meio cabeça-dura. Sempre tive medo de altura e, para combater o medo, fui aprender a pilotar avião. Acabei desistindo antes de pegar o brevê, mas o medo de avião foi espantado pra sempre.

    No aeroporto de Congonhas eu ía de madrugada, tomar café depois da noitada.

    :)

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