vidro, vidrinho, vidrão

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Quando eu conheci minha cunhada, tinha sete anos. Eu. Ela tinha uns 19 quase 20. Não falava português, não conhecia nada. Eu fui a guia, pelo menos no que dizia respeito à língua, já que eu também não conhecia nada fora da minha casa.

A gente gostava de andar pela Barão de Itapetininga. Rua chic de São Paulo na época. Ela parava em todas as lojas de joias e ia me mostrando: ali um solitário, lá uma esmeralda, aqui um rubi e mais além uma turquesa. A gente fazia tanto isso que com o tempo eu já sabia avaliar o preço de um anel de brilhante ou se um rubi estava fora da cotação. E eu gostava muito.

Não, não gostava- como até hoje não gosto – de joias. Nunca tive e as únicas que herdei: um anel de formatura e um colar de pérolas, foram roubadas num dos primeiros assaltos aqui em casa. Nem liguei muito. Não levaram livro nenhum nem  LP. Faz tempo isso. Ainda existia LP.

Voltando. O que eu gostava mesmo era do brilho e da limpidez das pedras. Adoro vidro. Qualquer vidro. Desde as garrafas grandes de cerveja, com seus vidros grossos e verdes até as garrafas de perfume, tão originais e delicadas.

Gosto de casa com muitas janelas de vidro, gosto de vidros de remédios ( ah, que prazer aquelas velhas farmácias, cheias de remédios em vidros escuros dentro de armários de madeira com portas de – é claro – vidro!), estranhamente só não gosto de móveis de vidro. Sei lá por que.

Coleciono bolas de vidro – aquelas com neve caindo e paisagens – e dentro do meu armário na cozinha tenho um monte de vidros onde boto os grãos e farinhas.

Dependo de vidro pra enxergar, desde também os sete anos. Óculos de míope, sem eles não sou ninguém.  Hoje já não são de vidro. Incompatibilidade entre o vidro e meu desajeitamento. Além do meu bolso. Trocar lentes é caro. Deixar cair óculos é fácil.

Olhando pra este monitor agora, lembrei da nossa primeira televisão. Enorme. Com um vidro na frente, é claro.

Quando quebrou e veio o técnico – ser mágico que eu respeitava mais que a todos pois me trazia de volta meus desenhos e filmes- quando ele veio e tirou o tubo e aquelas válvulas todas de dentro do móvel, só ficou a casca de madeira e o vidro. Aí eu entrei lá dentro e por uma boa meia hora, enquanto ele consertava, fui “artista de televisão”. Cantei, declamei, fiz caras e bocas, dentro do meu vidro.

Felicidade, pra quem gosta de vidro, é bem barata. Pra criança então, mais ainda.

Daí a gente cresce e descobre que o “anel que tu me deste era vidro e se quebrou” .

Snif.

 

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