invenção

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Tive um tio inventor.

Quer coisa melhor para uma criança do que ter na família alguém que, de barba na cara, ainda é um crianção?

Pois é, meu tio inventor era.

Na realidade, ela mais fuçava e reciclava do que inventava propriamente dito.

Também não sei dizer com precisão se inventor é o cara que efetivamente cria algo novo ou o que acrescenta mais alguma coisinha em objetos já existentes e os melhora.

Fica difícil de acreditar que o cara que inventou a roda inventou a roda. Provavelmente ele inventou alguma coisa mais ou menos disforme em cima da qual se punham estrados e pesos a carregar, acho eu. Talvez uma roda meio quadrada, sei lá.

O que importa é o conceito, e a roda deveria ser uma coisa que girasse. Nem sei se o cara que inventou estava pensando em carros e carroças. Talvez estivesse só ali, deitadão na grama, mascando um capinzinho, girando e girando na boca. Girando, entenderam o conceito? Daí à roda foi um pulo. Ou um giro.

Bom, meu tio inventor inventou algumas coisas. Uma cadeira de ferro de armar. Era para quem acampasse e para pescadores, numa época em que os pescadores pescavam assim, sentados à beira do rio. Sem muita coisa além de vara, anzol e linha. E uma cadeirinha pra armar.

Meu tio inventou uma. E deu a mim um protótipo, bem pequenininha.

Era para eu sentar, principalmente quando acompanhasse meu pai nas pescarias.

Mas um dia minha avó se recusou a me levar a um passeio. Ela que não me recusava quase nada.

Eu entristeci num primeiro momento. Depois veio muita raiva. Depois, na sequência, a idéia da vingança. Alguma coisa que deixasse na minha avó a lembrança do dia e da negativa que me dera. Vingança é um prato que se come frio. Para isso precisa esperar ele esfriar.

E eu esperei.

Ali, atrás da porta, por horas, foi o que me pareceu.

E quando ela voltou, eu, de cadeirinha de armar na mão, mirei e acertei-lhe as pernas. Bingo!

Eu havia inventado a arma. Ou a reciclagem das cadeiras de armar.

Apesar do meu tio nem ser tio de sangue, eu herdara dele a capacidade de inventar.

Um tanto conspurcada pela alma em conflito, porém.

3 thoughts on “invenção

  1. Maray, eu simplesmente AMO ler as suas histórias :)

    Quando eu era pequena, também reciclava objetos, mas no meu caso o que virou arma foi o “Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa”, que eu soltei na cabeça do meu irmão. E o pior é que eu nem estava brava com ele ou coisa parecida, só me bateu uma curiosidade de saber o que aconteceria se eu soltasse o dicionário na cabeça dele e eu soltei. No final das contas, descobri que o resultado foi doloroso, tanto para o meu irmão, que ficou chorando, como para mim, que levei umas belas palmadas nas partes acolchoadas por conta da minha experiência científica…

  2. Maray,
    Ou, talvez, o cara fosse muito gordo e desceu uma ladeira rolando sobre a própria barriga, né?
    Mas… Olha só! A inventora aí de cima que jogou o dicionário na cabeça de meu filho é justamente minha filha Lu! Ela chegou aqui antes de mim! Só posso dizer que essa história rende boas risadas até hoje.
    Abração.

  3. O inventor da família fui eu, mas por breve período. Na realidade era mais um pesquisador: certa vez enrolei um arame numa lâmpada de lanterna e enfiei as pontas na tomada. Fiquei com queimaduras nos dedos que mais pareciam sorrisos. Meus dedos riam da minha experência.

    :)

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