lei Antonieta, 132

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Minha mãe tinha certas idéias muito interessantes.

Elas não mudavam com o tempo. Eram repetidas até quase se tornar lei. Lei de Antonieta número 132.

Para o bem ou para o mal, ela tinha idéias e teorias.

Ela teve uma filha antes de mim. Não conheci. Essa irmã nasceu sete anos antes de mim e morreu com dois anos.

Sei lá porque, se por moda ou religiosidade ou por qualquer outro motivo, teve por madrinha de batismo Nossa Senhora. Não sei qual delas, que parece haver Nossas Senhoras para todos os gostos. Mas devia ser a mais óbvia e famosa. A simples. A mãe de Cristo.

Minha mãe tinha muitos parentes e embora poucas amigas, alguma deveria haver que topasse ser a madrinha da criança. Mas ela quis Nossa Senhora.

Não sei nada de liturgias, tampouco porque o padre teria aceito por madrinha uma pessoa que não pode se responsabilizar por uma criança, na falta de algum ou ambos os pais, que essa me parece ser a idéia de padrinhos e madrinhas. Alguém que fará as vezes de mãe ou pai se necessário for.

Bom, foi Nossa Senhora.

Com dois anos minha irmã teve uma meningite que complicou e ela morreu. Não há dor maior para um pai ou uma mãe do que a morte de um filho, eu sei. Sei também que provavelmente nada amansa o grito no coração de um pai que sofre essa perda.

Minha mãe apenas disse e repetiu a vida inteira que “nossa Senhora resolveu levar para si o anjinho que batizou”.  Que ela não devia ter dado sua filha a Nossa Senhora.

Não sei se isso resultou em culpa para ela ou em alívio para seu coração.

Não quero e nem devo julgar.

Não sei nem mesmo porque as pessoas buscam religiões e criam deuses, quando já é complicado o suficiente entender seres visíveis iguais a nós. Se fosse para acalmar o espírito, ainda entenderia. Sou psicóloga e bastante complacente com aquilo que traz paz ao coração dos homens, seja lá o que for.

Mas nunca entendi alguém criar um deus que o fere.

E o fere onde nenhum pai ou mãe deveria ser ferido.

Enfim…essa era a lei Antonieta 132, parágrafo único: se tiver que batizar um filho, nunca dê para madrinha ou padrinho um santo. Corre o risco dele gostar da criança e tirá-la de você.

One thought on “lei Antonieta, 132

  1. Os antigos – do tempo da minha avó – diziam que Nossa Senhora é madrinha de quem não tem. Mas nunca tinha ouvido de uma mãe que a tivesse escolhido para batizar um filho ou filha. Tomara que tenha servido de alívio.

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