inocente útil

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No meio da briga de pai e mãe, ele era o personagem central. Não por importância, porém, que naquela guerra da separação feia e suja, nenhum dos dois ligava muito pra ele.

Mas ele era útil. Pros dois lados. Pela pensão, no caso da mãe,pela revanche, no caso do pai.

Até que descobriu, no fundo de umas gavetas da mãe, umas cartas estranhas. Leu e mais estranho ainda achou o conteúdo. Ele já tinha doze  anos, sabia o que era uma pulada de cerca. Era inocente, não idiota.

Não mostrou nem ao pai nem à mãe. Medo de levar bronca por mexer onde não devia, sensação de que aquelas cartas podiam significar alguma mudança na guerra estabelecida.

Deu pra vigiar o pai. E um dia conseguiu ouvir um telefonema também estranho. Percebeu outra pulada de cerca, desta vez do pai. Ele estava ficando cada vez menos inocente, sem dúvida.

Numa jogada bem montada, falou com um e com outro. Mas não de um para o outro. O inocente perdia sua inocência.

Estabeleceu regras para si. Elegeu com quem ficar. Ameaçou com ar de inocência.

Venceu.

O inocente útil conseguiu, numa cajadada certeira, matar seus dois coelhos. Foi morar com a avó preferida.

E deixou, definitivamente, de ser inocente útil pra se sentir, o resto da vida, um culpado inútil.

A vida é ridícula, por vezes. As guerras também.

2 thoughts on “inocente útil

  1. Maray,
    São as coisas tristes que são vistas por aí. O início de minha vida como advogado foi com o “direito de família”. Acabei desistindo, decepcionado. Não aguentei mais ver dramas, traições, violências, “cara de pau”, falta de diálogo, uso de filhos como armas, falsidades, etc., de ambos os lados. E o pior é que tudo isso vem se generalizando. Cada vez mais o individualismo vem se sobrepondo ao bom relacionamento.
    Abração.

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