olhando casas

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Gosto de sair por aí, andando, olhando casas.

Quando viajo, seja por onde for, seja tão longe quanto for, eu gosto mesmo é de sair por aí, olhando casas.

Não visito quase museus, não entro em igrejas, só fico olhando pras ruas e casas, imaginando quem mora lá, como mora, como foi feito este ou aquele detalhe.

Já pensei em ser arquiteta, certa época. Quando descobri, em tempo, que não bastava o prazer de olhar casas, para construí-las era necessário um bocado de cálculo. E, afinal, onde entrariam as pessoas, aquelas pessoas que moravam nas casas, com suas alegrias e tristezas? Onde eu botaria isso na minha arquitetura? Eu, que só gosto de olhar casas?

Não falo das casas prêmios de revistas de construção. Das casas de portfólios de arquitetos renomados. Eu gosto das casas mais simples, aquelas dos puxadinhos, dos jardins bem cuidados, das formas assimétricas.

Gostei de Toledo e Assis como gosto do Campo Limpo.

Quando era menor, pra diferençar as casas de que mais gostava, dava a elas nomes. Havia a casa de estrelas da noite, lá na Lapa, que hoje sei se tratar de revestimento de mica. Havia a casa de gavetinhas, na Av. Central, no Brooklin, que se parecia com um gaveteiro de quarto, com seu revestimento em madeira na fachada, cheio de “puxadores”.

Havia as casas de canjica: feitas com bolas de massa, parecendo mesmo um prato de canjica de milho.

Havia as casas de castiçal ou de prato de bolo. Foram moda numa época. Eram as casas feitas sobre pilotis. Um verdadeiro prato de bolo de aniversário.

Não eram denominações pejorativas, ao contrário, era minha forma de admirar e nomear aquelas casas que eu tanto gostava de olhar.

Cheguei a conhecer as casas de lata, as favelas de pedaços de metal e amianto. Depois as de barracos de madeira e hoje as de tijolo baiano, sem revestimento.

Essas não são bonitas. Mas sempre tenho a impressão que daqui a uns trezentos anos, se elas resistirem,  não serão tão diferentes do que as cidades medievais da Europa. Com seus jardins pequenos bem cuidados, sua assimetria, sua arquitetura do uso e da pessoa.

Só não gosto das casas iguais. Dos bairros planejados, quer sejam eles de ricos ou pobres, dos conjuntos tipo Cingapura ou do Benfica em Portugal. Porque as pessoas lá dentro não são iguais. Porque tem de haver um espaço pra personalizar, pra botar um vaso de flor, quem sabe um revestimento de tijolinho ou uma treliça.

Dizem que a gente é o que come. Posso também dizer que a gente é onde mora. E se é bom comer um prato bem colorido, também deve ser bom morar bem diferente uns dos outros. Nem que seja pra se encontrar, numa noite escura.

A minha casa é aquela ali, a de lírio amarelo na lata de leite.

2 thoughts on “olhando casas

  1. Oi, Maray.
    Lindo texto! Concordo com você. Casa são as pessoas que moram nela. Daí a beleza dos pequenos detalhes, do vaso de flores, da treliça…
    Abração.

  2. Sim, casa que é casa deve ser personalizada. Espadas de São Jorge, casinha de cachorro no quintal ou roseira na cerca. Preciso mudar para uma casa com quintal.

    :)

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