street view

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Eu não devia ter ido, talvez. A lembrança estava lá, meio amarelada, na minha cabeça. Até aparecer o street view. Ê coisinha doida pra atiçar nossas recordações, quem diria!

A ferramenta é moderna. Diz que você pode viajar por cidades, por lugares, assim, sem sair da frente do teu computador. Um prêmio de consolação pra quem não tem possibilidades de, efetivamente, sair da frente do computador e ir viajar de verdade.

Eu viajei. Nas casas da minha infância, nas casas em que já morei.

E tomei um banho de passado, eu que todo santo dia já lavo as mãos e o rosto em passados, remotos ou não.

Nem morei em tantas casas assim. Foram, antes da qual estou morando agora, só quatro.

A segunda e a terceira foram demolidas, uma pra dar lugar a um prédio, num bairro que se encheu deles e a outra para um comércio, numa rua que se encheu deles.

Mas a primeira, a número um, pra minha surpresa, ainda está lá!

E está lá quase igual à minha memória! Só mudou, pelo menos por fora, o revestimento externo, o piso da varanda e uma porta de ferro, que não existia, numa época em que não existia também a possibilidade de roubo.

Por dentro não sei. A casa continua residencial e eu tive vergonha de bater e pedir pra entrar. Até porque, nesses tempos de insegurança, dificilmente alguém me deixaria entrar com a história de “rever minha primeira casa”. Eu, se alguém me aparecesse na porta com essa ladainha, discava direto pro 190.

Mas ela estava lá. Eu também estou aqui.

O que já não está aqui são minhas testemunhas oculares da história: minha avó, meu pai e minha mãe, meus irmãos.

Só eu estou aqui, eu e minhas memórias.

E agora, com quem vou checar se quem rolou escada abaixo foi efetivamente eu ou meu irmão? Se a goiabeira do vizinho era uma goiabeira ou uma romanzeira? Se no banheiro tinha uma banheira ou só um box?

Se a gente foi ao mesmo tempo, feliz e infeliz, feliz por ser criança, infeliz por ver infelicidade e nada poder fazer?

Ninguém, a não ser minha memória poderá me responder.

Até o dia em que inventarem um street memory.

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