gritos, buzinas e romances

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Quando aprendi a guiar, diziam-me que, com o tempo, o carro seria uma extensão dos meus pés, só que muito mais rápido.

De fato, isso aconteceu. Aquilo que de início me parecia quase impossível, tipo dar ré em curva olhando pelo espelho retrovisor, acabou se tornando tão fácil quanto pular corda chupando bala.

Tá bom, tá bom, de vez em quando eu engolia a bala num pulo mais altinho, assim como de vez em quando a marcha fazia um barulhão pra entrar, reclamando do mau jeito, mas isso faz parte…

Aprendi também que a buzina do carro funciona como quando a gente tem que avisar alguém e é necessário dar um grito, pra pessoa se tocar e não fazer o que iria fazer.

Dar um grito= buzinar.

Posto isso, devo dizer que minha mãe cansou de falar que não se deve sair por aí gritando. Que é feio e sinal de má educação.

Meu pai tampouco gritava. Com ninguém e nunca na vida.

Eu não grito, nem conseguiria, se quisesse. Voz fraca, desafina totalmente se elevo o tom.

Mas buzino. Quando cachorro passa na frente do carro, criança, velhinho que não presta atenção. E se não houver outro jeito de avisar.

Também buzino pra entrar em casa. Vítimas de assaltos das mais variadas formas, o jeito foi esquematizar a entrada na garagem, buzinando antes pra alguém vir abrir. Alguém que vai olhar dos dois lados e abrir e fechar rápido. Funciona mais que portão eletrônico, sei por experiência.

Fora isso, não grito nunca. Nem buzino.

Mas tenho a impressão que sou só eu que mantenho essas regras do século passado, eu mesma uma pessoa do século passado.

Tão logo o semáforo abre, eis que uma sinfonia de gritos-buzina pipoca nas minhas orelhas.

Alguém precisa avisar pra esse povo gritão que eu enxergo muito bem, apesar dos óculos. E também vejo o sinal abrir. Semáforos são sinais visuais, não sonoros.

As pessoas se acostumam com isso. Buzinam nos carros, falam alto nos celulares, gritam umas com as outras. Utilizam os rádios de seus carros como se fossem trios elétricos.

O mal desse século será a surdez precoce, assim como no romantismo foi a tuberculose.

E nem ao menos teremos o consolo de bons romances, snif…

2 thoughts on “gritos, buzinas e romances

  1. Buzino bem, modéstia à parte. Mas aqui é proibido. Em Luanda, não. Todo mundo buzina por lá. Perguntei ao motorista por que eles buzinam tanto e ele respondeu: “se colocaram a buzina no carro é pra usar, né?”

    Deu vontade de gritar. Mas eu não grito.

    :)

  2. Maray, também não sou de buzinar. E sinto Ó-D-I-O desses motoristas que entendem que a música (música???) de seus carros precisa ser ouvida pelo quarteirão inteiro. É a mais absoluta falta de educação.
    Definição de “Fração de Segundo” : é o tempo decorrido entre o abrir do sinal e o buzinar do idiota que está atrás.
    Abração.

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