a sala de jantar

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Uma cristaleira. Nada de interessante dentro exceto o espelho do fundo.

Um etager, como minha mãe chamava. Não sei se é assim que se escreve, nem mesmo se alguém ainda lembra dessa palavra. Sim, porque o móvel persiste até hoje. É aquele móvel que existe nas salas de jantar pra guardar louças e copos. Os mais chics.

Nesse móvel, ou melhor, no conteúdo desse móvel treinei meu desenho. Havia louça  inglesa, cheia de castelos em tons de azul, havia louça chinesa cheia de flores em tons de laranja, havia louça tcheca, em tons de ..verde-amarelo! E louça nacional, com frutas, flores, desenhos geométricos. Pra que tanta louça? Meu pai era leiloeiro. E minha mãe gostava de cozinhar. E eu. Bom, eu pegava aquela louça, punha em cima da mesa e desenhava os motivos.

Em cima desse móvel havia um Napoleão. Não, não o próprio nem nenhum outro em versão louquinha da silva.

O relógio. Aquele que tem a forma imitando o chapéu do Napoleão. E dentro, na parte de trás, um ótimo esconderijo pra “segredos”.

Havia também um vaso de latão e um porta-champagne de prata, com um buraco enorme embaixo que minha mãe havia feito pra fazer dele um cachepô. Até meu pai descobrir e armar um salseiro. Ela teve que tirar a planta e aquele porta champagne pra sempre ficou ali, bem em cima do móvel. E nunca portou champagne alguma, que a gente não era disso. Melhor seria ter continuado com a avenca que estava plantada lá. Que meu pai não me ouça, ou armará um salseiro post-mortem, tenho certeza.

E, finalmente, a mesa de jantar! Uma mesa que podia ser estendida, aumentando para até oito pessoas, mas que normalmente só ficava encurtada, pra quatro. Aos domingos era aumentada, não pra ninguém comer lá ( nunca se comeu lá) mas pro pôquer e o buraco dominicais, em certa época. A feijão.

Embaixo da mesa, meu mundo. Lá fui Robinson, lá fui escrava Isaura, lá fui princesa cercada de castelos de cartas que eu montava. Lá foi meu reino, dos 6 aos 10 anos, mais ou menos. Lá foi meu salão de beleza, lá foi meu emprego, lá foi minha prisão em Londres ( meu calabouço era londrino, sabe-se lá porquê!).

Debaixo daquela mesa, naquele pequeno espaço quadrado, que eu cobria com um cobertor, aprendi a me divertir sozinha.

Ótimo aprendizado.  Pra durar a vida inteira.

É muito bom ter amigos. Mas é muito bom ter imaginação.

Nem que seja pra criar mundos e amigos.

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