primeiras letras

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Ah, a sensação da primeira palavra lida por inteiro, sem soletrar, sem solavanco, lendo e entendendo tudo ao mesmo tempo! Puxa, é muito, muito melhor do que o primeiro soutien!

Foi cavalo. A primeira palavra. Não um cavalo qualquer, desses escritos em Times new Roman ou  Arial, nos livros do primário. Foi um tremendo cavalo, enorme, num painel ao lado do teatro Maria della Costa. Ou pelo menos nas adjacências. Relevem aí, eu devia ter uns seis anos…

Não sei do que se tratava a propaganda, pois esse painel era o que hoje chamamos de out-door, na língua pátria da Madonna. Aquela da música pop, que a outra nem mais é lembrada por esse nome, a não ser quando algum italiano das antigas dá uma topada numa pedra das modernas.

Depois que, passando de ônibus, sentada na janelinha, é claro, consegui ler “cavalo”, passei a ler tudo. Parecia a boneca Emília, do sítio, depois que tomou a pílula pra falar. Eu lia. De repente, tudo.

Lia, debaixo de um dos viadutos da Nove de Julho, o cartaz com uma mulher chorosa dentro de uma taça. Achava lindo. Não queria nem saber o que era alcoolismo, só achava lindo aquela mulher ali, dentro de uma taça. Eu lia tudo, mas nem sempre entendia. Isso acontece com muita gente por muito tempo, depois dos seis anos. Alguns carregam essa dificuldade até o fim dos dias.

Lia e amava a propaganda, também no Anhangabaú, do garoto da cera Parquetina. Era um neon, bem no alto de um prédio.

Lia e me divertia com a propaganda nos bondes do “ilustre cavalheiro ao seu lado”, aquela do rum creosotado…

Li a cartilha também, mas nunca achei a menor graça nas vovós que ficam vendo uvas. Cartilha é pobre de conteúdo literário. Como os livros do Paulo Coelho.

E ler, depois que se começa, não tem como parar.

Gosto da cidade sem placas, sem cartazes. Gosto da paisagem limpa. Mas vem cá, ficar na fila de ônibus sem nada pra ler é ruim demais, né não?

Já decorei no meu ponto de ônibus todos os “trago seu amor de volta”, todos os viagens baratas, todos os apartamentos prontos pra morar. Nada que preste, do ponto de vista leitura.

Ah, saudade dos anúncios do biotônico Fontoura, dos filmes do Majestic, até mesmo da sorte tirada no periquito da esquina. Não era boa leitura, mas fazia o tempo passar.

E, sobretudo, saudade daquela sensação da primeira palavra. Aquela que me permitiu ler e hoje, escrever!

 

One thought on “primeiras letras

  1. Aprendi a jogar xadrez e a ver as horas antes de aprender a ler. Mas quando aprendi, não parei mais. Estou me esforçando para lembrar qual foi a primeira palavra, mas lembrar nem sempre foi meu ponto forte.

    🙂

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