vida crônica

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Em casa assinávamos o Estado de São Paulo, o jornal. É claro que eu não tinha nada com essa decisão, eu tinha sete anos. Minha mãe também não apitava muito no quesito jornal. Minha avó sim. Era fissurada em crochê e recortava todas as receitas que vinham. Mas quem decidia e gostava de ler o jornal inteiro era meu pai.

Pra mim sobrava pouco, naquela época. Os quadrinhos, como  o Pafúncio, o Flash Gordon, os sobrinhos do capitão. Eu gostava médio. Mas o que eu descobri, ali na página das palavras cruzadas, bem pequenininhas, eram umas crônicas – na época eu não fazia idéia que eram crônicas- do Luiz Martins.

Eu nunca soube a cara que tinha o Luiz Martins, nem mesmo se ele escrevia alguma coisa que não fossem crônicas.

Como disse, eu não tinha a mínima idéia do que eram crônicas.

Muito depois, conheci o Drumond. E me apaixonei. Não pelas poesias dele, que eu não gosto nada de poesia. Pelas crônicas. Aí eu já tinha uma vaga idéia do que eram crônicas.

E o Lancelotti. Esse que fala, ou escreve, de futebol, de política, de gastronomia. Crônicas, hoje eu sei.

E o Manuel Bandeira. Que é poeta, mas um poeta travestido em cronista. Um dos únicos poetas que gosto. Quando ele poetisa em forma de crônica.

Na escola, gostava de fazer redações sem tema definido. Hoje sei que eram crônicas.

E ontem fui assistir a um documentário sensacional: “vou rifar seu coração”, sobre a música brega. Uma crônica cinematográfica, que é isso que, ao fim e ao cabo, é um documentário.

Uma belíssima crônica do nosso povo, aquele povo que curte nas músicas as “estorinhas” da vida.

Ou seja, crônicas.

Pra onde eu olho, vejo crônicas. Nas telas da Maria Auxiliadora, pintora naif das festas populares, nas telas do Toulouse, pintor impressionista das festas de cabaré. Crônicas em cores.

E cada vez mais, com a idade, vou percebendo que minha vida não daria um romance. Vida simples, de amores e tristezas cotidianos. Como os da maioria das pessoas.

Minha vida quando muito dá uma…crônica, é claro!

Finalmente descubro que Luiz Martins foi importante cronista e jornalista, casado com Tarsila do Amaral e publicou romances também. E vejo a cara dele, neste retrato pintado por Tarsila!

 

 

2 thoughts on “vida crônica

  1. Oi, Maray.
    Nossa! Do Estadão, ainda lembro das tiras de Mutt e Jeff, Steve Canyon, Acácio. Tô ficando velho!!!
    Quanto às crônicas… Sempre gostei, também. Assim como gosto de ler as suas crônicas. Bem que podiam estar sendo publicadas no Estadão.
    Abração.

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