filosofia no terminal

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Eu podia perguntar de onde venho, pra onde vou, como e por quê. Podia. Mas parece que isso tudo, apesar de fundamental, não me move nem comove.

Não sei de onde venho – não, não estou falando de parentes próximos, isso eu sei bem- tampouco sei bem para onde quero ir, sei melhor pra onde não quero ir; não sei bem meus porquês, mas o que eu não me canso de perguntar, de tentar entender, são os porquês dos seres humanos. Aqueles porquês mais genéricos, aquele tipo de coisa que a gente faz sem nem saber como nem quando, mas acaba fazendo tudo igual. Uns igual aos outros.

É isso que me motiva. Acho que o aspecto formiga de todos nós. Aquilo em que somos iguais, mais do que aquilo que nos faz diferentes.

A velhinha vem no ônibus no qual estou. Chega esbaforida. Xingando o “lazarento” que não dá lugar pra velhinhos. A partir daí, prensada entre o motorista e um passageiro, colada ao vidro da frente do ônibus, começa a resmungar alto.

Aparentemente, pelo menos no começo, está falando com o passageiro ao lado e o motorista. Aperentemente, porque nenhum dos dois lhe perguntou algo. Nem precisava.

Ela começa o discurso. Dez minutos depois, eu e todos os dez ou onze ali espremidos, naquele fim de tarde ensolarado e modorrento, ficamos sabendo toda a biografia – pelo menos em seus pontos principais- da senhorinha. Sabemos que ela tem duas aposentadorias, que tem casa alugada a uns 20 km dali, que o inquilino só dá problemas, que ela odeia aquela linha de ônibus, que ela espera nunca mais ter de tomar aquele, que a mãe dela era cuidadora de idosos e que ela aprendeu com a mãe dela a não rezar. A mãe dela rezava pra caramba e morreu antes da idosa que cuidava. Moral da história: rezar não adianta.

Interessante o ponto de vista pragmático, que tem minha simpatia no aspecto ateu da coisa, mas minha antipatia no aspecto toma lá, dá cá, religioso.  Eu devo ser mais religiosa que a velhinha, debaixo do meu ateísmo. Não negocio com santos.

E a velhinha continua. Cabelinhos pretos por fora e brancos rente ao couro cabeludo, baixinha, enfezada. Resmunga a viagem toda.

E a pergunta que não quer calar e não consigo responder: por que as pessoas só falam alto resmungando? Nunca ouvi alguém falar sozinho das boas coisas da vida, do por de sol lindo, das filhos e netos queridos, do bom que é voltar pra casa, do bom que é ter um trabalho, ter saúde, olhar um bicho ou uma árvore florida. Alguém falar: “puxa vida, que dia legal hoje!”

Acho que as coisas boas não são pra serem compartilhadas com o coletivo. Com desconhecidos, a gente reclama.

Uma vitimização, pra ganhar solidariedade? Ou será que a vida é mesmo uma droga e eu é que sou babaca?

Não sei.

Pra falar a verdade, tenho medo da resposta.

 

3 thoughts on “filosofia no terminal

  1. Falar coisas positivas sozinho parece coisa de maluco; resmungar sozinho é que é normal (e sintoma de que ninguém mais tem paciencia de ouvir). O mundo é babaca.

    :)

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