cultura televisiva

Standard

Tudo começou pra mim em 1957. Apenas dois anos depois de surgir a televisão em São Paulo, surgiu uma em casa. Enorme. O móvel, que a televisão até que nem.

De madeira avermelhada, não combinava com mais nada da sala. Aliás, até hoje acho que televisão não combina com nada.

Junto com a televisão, surgiram os televizinhos. Que vinham pontualmente ao cair da tarde, quando começavam os desenhos animados, o noticiário. Vizinhos que mal nos cumprimentavam, apareciam no portão sintomaticamente àquela hora. Na hora do Reporter Esso.  E se perdiam em conversas no portão, que minha mãe odiava, até serem convidados a entrar.

O que parecia ser um fator de socialização, logo tornou-se um inferno. Ninguém falava com ninguém, olhos vidrados na telinha. Eu, então, criança hiperativa, tinha que fechar a boca. Tortura.

Com o passar dos anos a coisa mudou. Televisão. Todo mundo passou a ter uma.

E elas passaram a quebrar também.

O que originou a figura do técnico da televisão. Um deus. Um mágico. Um ser esperado com ardor quando a televisão quebrava, viciados todos nós.

Um dia, o diagnóstico fatal: o tubo quebrou. Sim, as televisões tinham tubo. Uma coisa enorme lá atrás. E parece que o negócio era fatal. E caro pra trocar.

Assim, a gente que já estava em plena crise financeira na década de 60, quebrou de vez, junto com a televisão.

Por uns dois anos ela ficou quebrada. Nós também.

Então eu, viciada em TV e envergonhada de , tendo chegado lá, cair tanto assim na escala social, dizia a minhas amiguinhas de escola que não, não tinha assistido o desenho no dia anterior. Que achava TV uma droga. Que preferia ler. O que era meia verdade. Eu gostava de ler, mas gostava mais ainda de TV.

Eu me tornei, além de mentirosa eficaz, uma crítica premonitória  dos efeitos nocivos da TV.

Tudo isso terminou uns dois anos depois quando, numa levantadinha financeira do meu pai, a gente pode finalmente chamar o técnico e trocar o tubo.

Até hoje não sei o que foi sucesso naqueles anos.

Uma falha cultural…

2 thoughts on “cultura televisiva

  1. Seus textos, logo seu blog! Vou linka-lo!
    A melhor forma de encontrar bons blogs é prestar atenção nos comentários de visitas dos blogs inteligentes, e neste caso, foi o do Branco Leone!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *