os bolsos do meu pai

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Dizem que se conhece um homem pelos amigos que tem. Outros falam que pelas ações. Tem gente até que diz que se conhece um homem pela mulher.

Bobagem.

Acho que se conhece um homem – e uma mulher – por aquilo que carrega nos bolsos. No caso da mulher, na bolsa.

Os bolsos do meu pai sempre me disseram muito dele. Toda vez que ele voltava do trabalho, trabalho esse realizado numa das principais ruas de comércio popular de Sampa- eu revirava os bolsos dele. Sempre encontrava uma bala turca, daquelas de goma, ou um brinquedinho de camelô, ou um lápis, ou coisas pra casa, tipo um cinzeiro, mas que eu ficava feliz de encontrar.

Ele punha lá, nos bolsos do paletó, exatamente pra isso mesmo: pra eu encontrar.

Minha mãe também gostava de revirar o bolso dele. Ficava enlouquecida, porém, com as coisas que ela encontrava. Bilhetinhos, fotografias, cartas…essas meu pai não punha lá para serem encontradas por ela, mas minha mãe era boa pesquisadora. Ou talvez fossem para ela mesma, para serem encontradas. Até hoje não sei. Nem saberei, uma vez que os dois foram embora com seus segredos.

No bolso de cima do paletó, aquele pequenininho, que fica por fora, ele carregava um lenço dobrado de forma “artística”, formando cinco pontas. Eu aprendi a dobrar pra ele. Também aprendi a fazer nó de gravata, mas maridão nunca usou gravata de forma que eu pudesse exercer essa especialidade.

No bolso de trás da calça, o dinheiro dobrado, preso por um clip grandão. Ele cansou de ser assaltado mas nunca mudou o dinheiro de lugar. Ficava ali, fazendo volume, chamando atenção, aquele monte de “manolitas”, como dizia minha avó, chamando ladrão.

Mas meu pai tinha carteira. Punha no bolso interno. Lá, na carteira, não havia dinheiro. Havia uns santos católicos e espíritas, acho, e os tais bilhetinhos e fotos que minha mãe costumava encontrar.

No outro bolso de trás da calça ficava um lenço. Esse pras necessidades nasais. Ele tinha e me deixou de herança, uma rinite alérgica eterna.

Eram assim os bolsos do meu pai. Era assim meu pai. Atencioso com os filhos, atencioso com as mulheres alheias, atencioso para com os ladrões, facilitando-lhes o trabalho.

Meu pai era isso: um homem atencioso.

E cheio de bolsos.

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