sem lenço nem documento

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Dizem que a verdadeira liberdade é ser-se o que se é, sem precisar provar. Sem RG, sem documentos, sem lenço. Sem CPF nem talão de cheques.

Hoje eu sou essa pessoa. Sem nada além de mim mesma.

Deveria estar feliz, assim livre, leve e solta, mas não estou.

Tive um dia de cão, ontem. Perdi – ou roubaram, de maneira sutil – minha carteira. Nela, tudo de mim. Tudo que comprovava o quanto sou uma boa cidadã, pagante de impostos, cumpridora de leis. Com ela eu podia guiar e matar alguém ao volante. Com ela eu podia comprar e pagar com cheque sem fundo. Com ela eu podia me endividar a vontade com cartão. Com ela eu podia sonegar imposto de renda.

Mas nunca fiz nada disso. Minha carteira de motorista, meu talão de cheques, meu cartão de crédito, meu cartão de plano de saúde, meu CPF e meu RG nunca me serviram pra burlar lei nenhuma. Sou uma cidadã exemplar. Ou uma acomodada. Depende do ângulo pelo qual se olhe.

E, sendo assim essa pessoa tão livre, não consigo fazer nada. Pra onde eu olhe, sempre tem alguém me pedindo algum documento. Valho pouco, por mim mesma, é o que constato.

Minto, posso andar de ônibus. Meu bilhete único não estava na bolsa. Esse eu ainda tenho.

E minha história de vida. Meus gostos, meus atos, meu jeito de ser, meus amigos e família, minhas cachorras e plantas e meu tango. E meus livros e meus discos.

Eu deveria estar feliz.

Mas não estou.

E ao lembrar de mim mesma, ontem à noite, chorando sentada numa calçada, com um rato enorme saindo do esgoto e vindo na minha direção, em plena Oscar Freire, sabe o que eu sinto?

Vontade de rir.

Não é felicidade. É histeria.

4 thoughts on “sem lenço nem documento

  1. Marília

    Puxa vida, que triste!
    Já senti na pele, ou melhor, na bolsa!
    Impotência… tristeza… horror…
    Até hoje me arrepio só em lembrar.
    Mas o tempo coloca tudo no lugar novamente.

  2. Pessoal: obrigada pela solidariedade. Eu ando agora com uma carteira infantil que achei aqui em casa e que a gente usa pra essas situações (sim, já se tornaram rotina) e xerox do Rg e do CPF, que eu tinha gravado no micro. Tudo fake. Mas enfim…daqui há um tempo de burocracia refaço meus documentos. E posso provar que eu sou eu. A pergunta que não quer calar é: pra que provar?
    E Andrea, foi na Oscar Freire porque foi onde eu desci do ônibus lotado e comecei a chorar na calçada. Ainda não tô podendo tanto assim pra perder carteira lá. Afe!! 😉

  3. O pior de perder a carteira – sim, já aconteceu comigo – é ter que bloquear cartões de crédito, avisar o banco, registrar a ocorrência e torcer para que os documentos não sejam usados para algum trambique, além, é claro, de ter que tirar todos os documentos novamente.

    Eu daria a culpa ao rato.

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