pra você, que diz que não sou polêmica

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Quando  decidi, desde a mais tenra infância, qual seria meu time de futebol, fui polêmica.

Criada numa família de sãopaulinos roxos e de carteirinha, ter me tornado uma corintiana nem tão roxa nem de carteirinha, mas corintiana, já foi uma polêmica e tanto. Pode crer. Só não apanhei porque em casa existia a política da não violência.

Na adolescência confesso que não estabeleci muitas polêmicas. Comecei a fumar aos doze anos e de primeira aluna no primário inteiro, comecei a repetir no ginásio. Foram duas repetências, o bastante pra gerar outro problema em casa. Pela precedência do fato. Mas não boto isso na conta de polêmicas. Adolescente é quase tudo igual. Mesmo na rebeldia.

Casei cedo demais pra minha geração. E não estava grávida. Aliás, gravidez essa que só veio a acontecer depois de sete anos. Aí uma certa polêmica. Não era muito natural esperar tanto. Mas eu sou lerda nas decisões, acho.

Politicamente fui de esquerda. Esquerda radical, pra época. Luta armada e coisa e tal. Mas a época era outra e ser de esquerda na ditadura não considero polêmica. É sobrevivência pura. Mesmo que pra muitos de nós tenha significado a morte. Mas falo de sobrevivência intelectual, ética, o que não tem nada a ver com sobrevivência física. E não, não estou sendo nem fui polêmica na época.

Intelectualmente não estabelecia polêmicas no discurso. Não tinha bagagem intelectual pra tanto. Era uma época de muitos debates e tensões. Como estabelecer discussões se eu era capaz de chorar se alguém levantasse a voz pra mim? Sou até hoje. Nem precisa me torturar. É só gritar comigo.

Acho que você tem razão, amigo. Não sou polêmica. Existem umas coisas meio raras mas são só coisas superficiais: cabelo vermelho, adoração pela cor roxa, gosto por botecos malcheirosos e prato feito, nenhum gosto por qualquer tipo de jóia que não seja de sementes, mas todas essas coisas são gostos. E não polêmicas.

Pecados capitais? Ira, inveja, gula, avareza, rancor, luxúria, essas coisas? Não, nunca falo disso em minhas crônicas. Porque acho que isso tudo faz parte da vida. Como fazer cocô ou xixi, botar o dedo no nariz, peidar debaixo dos lençóis. Nada disso é bonito, mas faz parte da vida. E eu não sou escatológica. Em nenhum sentido.

Então, você está certo. Não estabeleço polêmicas, não sou séria, não consigo falar de tristezas, que dirá falar de pontos controversos…Não me incomodo em agradar aos outros. Não é por isso. Quero agradar aos outros até certo ponto. Mas sobretudo quero, nesta altura da minha vida, agradar a mim mesma. Ser leve, mesmo quando a vida fora das crônicas nem é tão leve assim. Mas ser leve nelas é tornar menos pesado o fardo total. Imagina se eu fosse ser séria e polêmica?!

Nem conseguiria. Falta vocação, falta vontade, falta estofo  e falta estômago.

Polêmica, eu? Tô fora!!

 

4 thoughts on “pra você, que diz que não sou polêmica

  1. Alziro: adorei o tal do hard core!!

    Constantino: apesar de corinthiana, sou razoável. Não me atrevo a escalar time nenhum. Mas é claro que tem que ter o Neymar e o Ganso. E, pensando bem, o….bom, deixa pra lá. Não vou começar uma coisa que sei bem como termina :)

    Alberto: como assim, NÃO GOSTAR de tango?????

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