perseguição noturna

Standard

Umas dez horas da noite. Finalmente temperatura baixa, saímos pra caminhar. Depois de duas quadras apenas ele surge.

Passou por nós, vindo de trás. Andando rápido, com a determinação de quem sabe o que quer e  aonde vai.

Continuou na frente. Rastreando a rua, de um lado a outro.

De vez em quando, muito disfarçadamente, olhando em nossa direção. Depois de uns 200 metros percebemos o jogo: ele ia na frente, cheirava uma casa aqui, latia pra um cachorro ali (todos dentro das casas,naturalmente), sempre na frente. Até que chegava a esquina. Aí a encenação era outra: ele ia e vinha em nossa frente, sem nos olhar. Assim: fazia que ia virar mas na realidade não virava. Punha-se a cheirar qualquer coisa bem na esquina como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Tão interessante que ele tinha que parar.

Nós não parávamos. Continuávamos pela rua que havíamos escolhido.

Não dava dois segundos e ele surgia de trás, novamente andando rápido na nossa frente.

Fez isso enquanto durou nossa caminhada. Sempre igual o artifício nas esquinas.

Com o tempo foi ou cansando ou tentando estabelecer laços mais íntimos. Passou a andar muitas vezes atrás e não em nossa frente. Bem perto, como se fosse da família.

Chegando na esquina de casa nós tínhamos que virar. Era a nossa rua, mas não queríamos que ele nos acompanhasse. Daí nós usamos o artifício dele: fingimos um interesse grande nas pedras do chão deixando que ele passasse à nossa frente.

Ele caiu. Seguiu em frente.

Nós corremos o mais silenciosamente que pudemos e viramos em nossa rua. Cinquenta metros, vinte metros, pronto: chegamos ao portão!

Arfante, pidão, o vira-lata chegou junto.

Dormi mal essa noite.

Como é difícil dizer não a certas pessoas …

4 thoughts on “perseguição noturna

  1. MFC: meu coração ficou partido, sim. Mas minha cabeça é soberana, ainda…já tenho duas vira-latas e minha casa não comporta mais. Mas que deu uma dor lá dentro, ah, isso deu!

    Marília: vale a resposta pro Manuel, acima. Espero que o golpe do vira-lata tenha dado certo com alguém que possa cuidar dele!

  2. Sabe, Maray? Quando vejo essas situações fico arrasado. Muitos desses cães estão apenas procurando por um novo dono, pois foram abandonados pelo dono anterior. É uma enorme irresponsabilidade o abandono de animais acostumados, desde bem pequenos, a não saberem defender-se. As pessoas deveriam pensar melhor antes de adotarem um cãozinho, um gatinho, um passarinho. Eles são totalmente dependentes, nunca foram ensinados a cuidarem de si mesmos. Não é possível abandoná-los à própria sorte.
    Abração.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *