piuiiiiii !

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A gente gosta de buscar ligações entre as coisas que acontecem por aí. Eu também gosto.

Uma forma de entender o mundo, uma forma de antecipar eventos, de evitar surpresas, de se preparar para a vida, sei lá.

E vamos pela vida afora fazendo as ligações mais esdrúxulas. Minha mãe jurava de pés juntos que os sonhos dela eram premonitórios. Coitada, nunca adivinhou nada, nem mesmo uma dezena no bicho. Mas isso não parecia abalar sua fé. Talvez a fé não nos sonhos, mas no seu poder pessoal. Minha mãe era uma mulher decidida. Decididamente autoritária.

Minha avó estabelecia ligações entre comidas e plantas. Havia chás pra qualquer coisa. Alguns de tradição milenar, outros que ela inventava após observação. Bom, pelo menos nenhum chá que ela fez jamais matou ninguém. Se curou, isso é outra coisa.

Meu pai estabelecia ligações entre palavras. Viciado em charadas e cruzadas, ele não podia ouvir uma palavra “difícil” sem sorrir e guardá-la, ou na memória ou em algum papelzinho. E na primeira oportunidade, usá-la em algum jogo. Lembro que ele não fez tanta festa pra mim quando eu tirava boas notas na escola mas nunca esqueci o dia em que ele me ouviu dizer a palavra “aliás”. Como ele elogiou e ficou contente! Tá bom, a palavra é até bem simples mas eu era bem pequena. E sabia o que ela significava. Aliás, aliás é uma das minhas preferidas até hoje.

Eu estabeleço ligações supersticiosas. Mesmo que não admita. Se num determinado dia em que usei roupa vermelha perdi a carteira, é bem provável que eu deixe de usar a cor. Pelo menos nos dias em que a carteira estiver recheada. Poucos.

Mais ou menos assim.

Porém com o tempo, me percebo “desfazendo” ligações. Cantores que eu não gostava por conta de posições políticas hoje passo a ouvir-lhes a voz sem rancor. E a separar o talento da ideologia.

Escritores que eu abominava por conta de vaidade ou mesmo por serem muito premiados, o que assanhava minha fúria contra best-sellers, hoje já leio. E descubro que sim, de vez em quando, a vox populi acerta. Ou a vox editorialis…

Começo a admitir um ser humano mais multifacetado do que jamais admiti. E isso alivia.

Porque eu também começo a me permitir mais facetas do que as que jamais aceitei ter. E a encará-las. Como esses espelhos que permitem a gente se enxergar inteira, de todos os ângulos.

Talvez envelhecer seja isso: desfazer ligações conhecidas. Buscar caminhos novos.

Ou, pura e simplesmente, ter mais paciência.

Paciência de esperar pra ver.

Só não sei ver o que.

A luz no fim do túnel, espero.

Ou um som de trem chegando cada vez mais rápido…

2 thoughts on “piuiiiiii !

  1. Pois é, a idade acalma, nos faz mais pacientes ou resignados. É por isso que não gosto de envelhecer. Mas também estabeleço ligações especiais. Se vou a um restaurante, por exemplo, e não gosto da comida, não volto nunca mais. Ué…

    🙂

  2. A resposta à sua pergunta sobre a música italiana está em um trecho do post quando escrrevi: “Falta, agora, descobrir quem irá substituir músicos como Paolo Conte, Lucio Dalla ou Pino Daniele, quando eles decidirem que é o momento de parar, ou forem fazer companhia a Fabrizio De Andrè, Giorgio Gaber e todos os outros que cantam do lado de lá.”

    Sinto muito. :/

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