filhos

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Eu consigo explicar o gosto do jiló. Eu consigo explicar a sensação da chuva caindo no rosto. Eu consigo explicar a cor da rosa vermelha. É difícil, requer imaginação e a explicação nem sempre fica a contento, mas a gente consegue, com um pouco de esforço.

Mas não consigo, de jeito nenhum, explicar o que é ter filhos.

Não, não estou falando do processo propriamente dito. Esse é fácil, todo mundo está interessado, todo mundo gosta, e pela motivação e pela  própria natureza humana, todo mundo aprende rapidinho, rapidinho.

Estou falando do que é ter filhos.

Eu nunca quis, até tê-los. Até hoje nem sei bem porque os tive, como apareceu a vontade. Mas tive dois. E depois de tê-los, sabe-se lá por qual razão, a vida se divide em dois: antes e depois. E a vida de depois, a de agora que os tenho, não consegue imaginar a vida de antes de tê-los.

Eles não são eu. Nem mesmo poderiam ser reconhecidos como tal na multidão, embora se pareçam conosco fisicamente. Mas tenho amigos e amigas que se parecem mais comigo do que eles. Tenho amigos e amigas que têm mais afinidades de gosto comigo do que eles. Tenho amigos e amigas que às vezes vejo mais do que vejo a eles.  Mas seriam filhos iguais a amigos e amigas? Não, não são,embora sejam também amigos e amigas nossos.

Eles têm conosco uma liberdade que nem amigos têm. Dizem o que pensam sem pestanejar. E a gente fica irritado?? Fica. Como fica! Mas o estranho é que passa. E não deixa marcas. E olhem que eu sou perita em memória rancorosa, como eu a chamo. Esqueço o que como no almoço mas não esqueço um destrato de amigo.

Tenho pavor de morrer. Evito pensar no assunto e quando penso é pra planejar coisas boas que quero fazer ANTES. Não penso nunca na morte em si. Penso no antes.

E lamento. Lamento que um dia deixarei – serei obrigada a – deixar a vida que gosto tanto.

Mas lamento mesmo me afastar dos filhos.

Essa é a verdadeira morte. Estar longe deles pra sempre.

 

2 thoughts on “filhos

  1. Eles são verdadeiramente a nossa vida eterna!
    Pelo menos é assim que os entendo, como um bocadinho meu que cá fica!
    Beijos.

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