de heranças e fusquinhas

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A gente herda coisas interessantes dos pais e familiares. E não estou falando de objetos ou dinheiro.

Falo de hábitos e manias.

Alguns, a gente nem sabe que herda, a não ser quando o hábito aparece. Então de repente a gente se vê fazendo coisas num repeteco, quase iguais às que a mãe, o pai ou os avós da gente faziam.

Minha avó passou a vida – ou a parte da vida em que ela passou conosco- fazendo crochê. Ela tentou me ensinar, mas eu não quis. Certo dia, bem depois dela ter morrido, meu pai veio me visitar e levou um susto ao me ver fazendo crochê: “você está igual à Dona Mariana!!” Minha avó. Eu estava mesmo: mesma postura, mesma  atenção, mesma velocidade, conversando e crochetando no sofá.

Meu gosto por fazer supermercado: tal qual meu pai, nada me deixa mais feliz do que uma despensa cheia. Parece que o tempo pode ser ruim quanto for, que o mundo se torne inóspito a mais não poder, que a solidão e a tristeza imperem, enquanto a despensa estiver cheia, eu tenho a força!! Meu pai ficava feliz com a mesma coisa. Chegava a mostrar a despensa para amigos que iam em casa, tal qual certas pessoas mostram a adega. Ele brilhava os olhos no prazer dos sacos de açúcar, de feijão, de farinha, azeites e vinhos. E latas. Muitas latas.

Eu não curto latas e quase não compro. Como sou natureba, o que sempre está cheio é minha geladeira e minha fruteira, mas o prazer que sinto com isso é similar ao dele, embora a única guerra que eu tenha vivido tenha sido a de travesseiros e não tenha passado privações como ele, a não ser as clássicas de família de classe média baixa. Mas não ter tido carro, nem roupas de grifes, nem viagens, nada disso deixou marcas. São coisas sem as quais pode-se perfeitamente passar, por incrível que pareça aos jovens de hoje em dia. Também herdei o gosto por palavras cruzadas. E por minestrones e macarrão feito em casa.

E por “fazer fusquinha”, que ao contrário do que muita gente possa achar não é fazer aquele carro alemão. É guardar uma coisa gostosa, esperar que todos comam seus pedaços e comer o seu sozinha, num momento em que ninguém mais tem. Isso é “fazer fusquinha”.

É na páscoa receber seu ovo e não comer. E deixar pra comer duas semanas depois, quando todo mundo já está com saudades do chocolate e não tem mais.

Isso é “fazer fusquinha”.

Eu gostava – ainda gosto- de fazer fusquinha.

Mas meu irmão não. Ele passou a vida comendo meu pedaço de bolo escondido, devorando tranqüilo o chocolate achado, lambendo a última bolacha do pacote ou dando o último gole no refrigerante.

Quer saber? Sinto falta disso. Se eu era a rainha da fusquinha, ele sempre foi o rei do “bobeou, dançou”.  A gente se completava. Pena que ele se foi, agora não tem mais graça fazer fusquinha. E me vejo como ele, herdando aquela coisa de “aqui, agora” antes que seja tarde demais.

Ele não teve tempo.

 

 

4 thoughts on “de heranças e fusquinhas

  1. Maray,
    Que postagem! Começa de forma alegre e termina numa reminiscência triste mas bonita homenagem ao seu irmão. Tenho duas irmãs e não consigo me ver longe delas.
    Quanto ao fusquinha, estava pensando que fosse um VW, no qual sou viciado. Tenho carro dessa marca há 50 anos e nunca pensei em mudar. Acho, até, que a VW deveria me prestar uma homenagem, pela minha fidelidade. hehehehehe!
    Abração.

  2. Minha mãe contava que fazia fusquinha com os irmãos. Só não falava assim. A expressão eu não conhecia, só a maldade (hehehe). Nada contra suas manias. Aliás, quanto ao crochê, aprendi que a uma geração de crochê sucede uma de tricô e assim por diante. Nisso você também esteve certa: copiou da avó, pulando uma geração.

  3. Há coisas que nos estão inscritas na nossa matriz genética… outras a que nos habituiamos por mimetismo de tanto as vermos!

    Beijinhos e bom fim de semana.

  4. Nunca conseguiria fazer fusquinha; nem tentei. Como tudo como um esganado à caminhho da forca. Se tiver dez tipos de chocolate, como todos. Na hora. Você não teria nenhuma chance de fazer fusquinha comigo por perto.
    :)

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