coisas que não mudaram minha vida

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Papai Noel não existe.
Eu desconfiava. Nas poucas vezes em que escrevi cartinhas, ele não levou em consideração. Tá bom, meus pedidos iam além das possibilidades financeiras familiares, mas papai Noel é cumpridor, ou não? Fora o fato de que eu morria de medo daquele velho de barbas brancas, a altura do meu pai, o cheiro do meu pai, e que diziam que não era o meu pai e ele, pra não se revelar, ficava mudo. Aliás, eu sempre achei que o papai Noel tinha algum problema de fala: aqueles hohoho , sei não…

A cegonha não existe.
Eu também desconfiava. Quando vi em foto uma cegonha voando e comparei o peso do bichinho com o peso de um bebê, a coisa não combinava. Tá bom, eu não conhecia o condor americano, que pode sim carregar um bebê e muito mais. Mas desconfiei. Depois as risadinhas dos adultos cada vez que se tocava no assunto, davam a entender que havia algo mais do que a cegonha no ar e não eram os aviões de carreira. Descobri tudo numa….enciclopédia! Ninguém acredita mas é verdade: a enciclopédia explicava a coisa toda e vinha até com ilustrações dos órgãos genitais masculinos e femininos. Por isso sempre digo hoje que meu conhecimento sexual é …enciclopédico!

A linha do equador não existe
Enquanto linha, eu sei. É apenas imaginária. Mas até eu ter aulas de geografia no primário, eu achava que ela existia, sim. Isso porque minha avó tinha guardado, em suas relíquias, uma espécie de vareta cheia de fitas coloridas que ela contava ter ganho na viagem de vinda para o Brasil, ao passar pela linha do Equador. Acho que houve alguma festa no navio. Então eu achava, muito justificadamente, que a linha do equador era uma fita que se passava e por isso a “lembrancinha” nos guardados da minha avó. Minha versão é muito mais romântica do que a real, é ou não é?

O homem da mala não existe
Como não existe? Vinha mês sim, mês não, com uma mala de couro marrom cheia de ternos brancos de linho, que meu pai comprava pra ele ou para meus irmãos. Tinha gravatas também e uma ou outra coisa. Só coisas masculinas. Ele tinha bigodes e cabelos pretos. O turco da prestação. Minha mãe, provavelmente pra me afastar da sala onde os “homens” da casa experimentariam roupas, dizia que ele era o famoso homem da mala, aquele que pegava criancinhas malcriadas pra fazer sabe-se lá o que. Eu duvidava. Até porque minha mãe tinha um arsenal de ameaças não cumpridas: me botar em colégio interno, dar pras ciganas, chamar o homem da mala, por aí. De tanto repetir essas coisas, perdeu a credibilidade. E o homem da mala, quando me via ao longe, dava tchauzinho e sorria. Simpático esse homem da mala…

A vida eterna não existe
Primeiro achei que sim, ela não existe. Depois achei que não, ela existe sim, na medida em que nos transformamos em outras coisas, a evolução, etc, etc. Agora tendo a achar que se ela existisse seria um saco. Mas me pego desejando viver mais, sempre mais, como aqueles avarentos do Moliere, contando as moedas e querendo sempre mais e mais. Um ano mais, uma década mais, um século mais…

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