milhagem

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Pra viajar, ou demonstrar gosto para, você não precisa ter viajado.

Não na vida real.

Dá pra viajar por lugares e mundos só na cabeça, só na imaginação. Alguns precisam da ajuda de livros, outros de filmes, outros de relatos de amigos que viajaram e outros nem disso. Só a imaginação. E aí, os mundos viajados são infinitos, ao contrário dos mundos reais.

Lembro do dia em que meu pai, leiloeiro, trouxe para casa uma réplica de uma das naus portuguesas, em madeira, cheia de detalhes. Havia sobrado de algum leilão, eu acho. Ou ele arrematou, não sei. Trouxe para minha mãe por nos móveis, enfeitar a sala.

Ela odiou. Eu não.

Levei pro meu quarto e comecei a viajar. Eu ainda não sabia muito, na época, sobre os navegadores, fossem eles portugueses, espanhóis ou vikings. Nem tínhamos televisão ainda.

Mas eu já sabia ler. E meu livro de cabeceira, se é que posso chamar assim, era o Robinson Crusoé. Ele hoje está na estante, mas será eternamente meu livro de cabeceira.

Mais tarde um pouquinho, já no primário, tive o Atlas. Grandão, colorido, muito chato.

Em todos os sentidos: páginas largas que transformavam meu mundo em fatias achatadas. Só servia mesmo pra brincar de achar lugares estranhos, junto com amigos. Geralmente ganhava quem  escolhesse a palavra maior, aquela em que ninguém presta atenção. Os que escolhiam palavras pequenas saiam no prejuízo.

Eu queria mesmo era um globo.

Continuo querendo. Podia comprar um, claro. Mas assim não vale.

Globo é como amor, pra mim. Tem que vir de improviso, na curva da esquina, na amanhecer de um novo dia, no ônibus ou na escola. Não pode ser comprado. Tem que aparecer na minha frente.

Pura superstição. Sempre espero encontrar um ( globo, não amor) em alguma caçamba de lixo, em algum bricabraque, num terreno baldio, sei lá.

Só assim valerá. Essa é também uma viagem. A minha viagem.

Enquanto isso, continuo viajando sempre que posso. Pra longe ou pra perto, o que importa é conhecer lugares novos. A rua de baixo, a Europa, uma cidadezinha na Califórnia.

Um dia será a última viagem, eu sei.

Enquanto essa não chega, acumulo milhas.

2 thoughts on “milhagem

  1. Oi, Maray.
    Juntando esta postagem com a anterior, que você continue viajando por mais 40 anos!
    Veja só: você nasceu alguns dias antes que eu, já que eu estou na ponta do sanduiche, lá no dia 1º. Mas, isso é só em termos de sanduiche. Na verdade, eu sou de alguns anos antes. hehehehehehehehehehehe
    Feliz aniversário e feliz 2012.
    Abração.

  2. Que em 2012 possas concretizar muitos dos teus projectos e que ele venha bem menos farrusco do que o pintam.
    Um grande abraço!

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