a princesa da rua

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Ela deve ter seus 1,80 m, mais ou menos. E está engordando a olhos vistos nos últimos anos.

Cabelos curtos, cortados de forma masculina. Aliás, de feminina ela só tem a voz e as maneiras suaves.

No começo, quando ela batia à porta pedindo coisas pra dar, eu perguntava: que coisas? Daí descobri que ela não era especializada. Um alívio. Qualquer coisa, disse ela. Menos dinheiro e comida. Bom, isso sempre tem. Dinheiro pouco e comida só vegetariana, mas tem. O resto costuma ter bastante. Sabe como é, casa de mãe, filhos e sobrinhas mandam tranqueiras “para dar”. Quem mora em apartamento não tem mais gente batendo na porta e pedindo coisas. E aqui, casa em bairro cercado de favelas , sempre passa alguém.

Quando perguntei-lhe o nome, tive uma surpresa. Esperava Valdelice ou Gislaine, Maria ou Socorro, mas veio Soraia. Lembrei daquela da Pérsia, quando existia a Pérsia, e sorri por dentro. Esta minha Soraia era uma versão latina e tamanho GG daquela. Enfim…

Durante anos ela tem vindo todos os meses, quando não, todas as semanas. E durante anos eu sempre tenho coisas. Às vezes novas ou quase, como quando os filhos mudaram de casa, às vezes esquisitas, como a coleção de cachimbos italianos do maridão, às vezes não tenho nada, mas a gente dá um sorriso, comenta o tempo, um copo de água que o calor está de lascar e ela vai feliz.

Quando minha mãe estava bem velhinha e não achava quem a ajudasse, pedi à Soraia se ela não queria ser acompanhante da minha mãe. De referência eu só tinha os anos em que nos conhecíamos e sua educação. Achei que ela sair da rua, deixar de ser catadora e passar a ter um salário fixo, bom, seria ótimo pra ela e pra mim mãe também. Uma acompanhante de “peso”, em todos os sentidos, também ajudaria. Ela se desculpou com delicadeza.

Sabe o que é? Eu acostumei na rua. Não sei trabalhar com horário, com patrão. Gosto de me sentir livre. Mas tenho uma prima, pode ser?

Podia. A prima acompanhou minha mãe até a morte e chorou mais do que eu no enterro dela. Deram-se bem, as duas.

A Soraia? Continuou catando e pedindo. Assim, cada dia maior, cabelo quase raspado, roupas masculinas e aquela voz mansa e delicada.

Soraia. Um ser livre. Como poucos.

3 thoughts on “a princesa da rua

  1. Gostei muito de conhecer a Soraia!!
    E não é que o nome me lembrou o mesmo que a ti?!
    … a repudiada mulher do Xá que não podia dar-lhe descendentes!

  2. Oi, Maray.
    Não sou Soraia, mas acabo voltando para ler. Bonito relato que nos ensina a não julgar superficialmente, pelas primeiras aparências. Boas festas e um ano pelno de paz, saúde, alegrias, para você e os seus.
    Abração

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