velhos amigos

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Eu e o Murphy somos velhos amigos. Daqueles velhos amigos ou amigos velhos – o que não é a mesma coisa – que são ranhetas, que brigam, que implicam, que riem à socapa como só os velhos amigos – e amigos velhos – podem rir, enfim, aqueles que não se desgrudam, numa  relação não de amor e ódio mas de convivência e necessidade. Sim, porque acho que precisamos um do outro.

O Murphy precisa de mim pra exercitar seu modus vivendi, que é a “passação de perna” no sonho dos outros, no caso, dos meus.

E eu preciso dele – por que não admitir?- pra jogar o jogo da vida.

Posto isso, viajar de avião pra mim é um sufoco, literalmente falando. Claustrofóbica controlada mas não curada ( o que acho que nem existe) aquela portinhola do avião quando fecha, fecha com ela uma parte imensa do meu ar. Passo a respirar fundo e acho que aí o Murphy dá seu primeiro sorrisinho.

Depois tem a escolha do lugar: já caí, certa vez em que o Murphy venceu a parada, no meio de uma fileira com cinco pessoas, as mais gordas exatamente ao meu lado. Não me deixaram nem um espacinho onde apoiar o cotovelo.

Depois disso decidi comprar a passagem com tal antecedência que me permitisse passar eu a perna no Murphy escolhendo o melhor lugar.

Bom, o que a mim parecia o melhor lugar. Nem sempre foi. Muitas vezes a escolha da janelinha – eu adoro janelinha, me dá impressão que tem mais ar- caiu bem em cima da asa, perdendo assim toda a possibilidade de paisagem, a não ser aquela fuselagem feiosa.

Desta vez decidi ir na poltrona do corredor, ao lado do banheiro. Mijona assumida e tímida idem, não queria incomodar ninguém com minha idas ao banheiro. E corredor porque eu mereço botar pelo menos uma das pernas pra fora, esticadona.

Murphy agiu rápido e depois de duas ou três pessoas tropeçarem na minha perna e da passagem de um carrinho por cima do meu pé, desisti. 1 x 0 pra ele.

Ao meu lado, deitada comodamente em duas poltronas, uma senhora que comprara a passagem na fileira do meio e fora sorteada com a ausência de vizinhos. Murphy devia estar tão ocupado decidindo me ferrar que esqueceu dela…

A companhia aérea disponibilizou pasta de dentes ( que eu sempre tenho), escova, pente, essas coisas que fazem parte da nécessaire de qualquer mulher prevenida e meinhas. Eu não uso meinhas em avião. Não consigo achar espaço pra tirar e guardar meus tênis (mas as meinhas valeram quando todas as minhas meias de verdade estavam sujas e não havia mais nada). Disponibiliza também fones de ouvido que me incomodam e acabo não usando.

E não disponibiliza máscaras para os olhos. Que me ajudariam muito, já que não suporto luz. Murphy deve ter participado da reunião da companhia que definia os itens. Antigamente eles davam as tais máscaras.

Paciência. A manga do casaco na cara auxilia.  Uma camiseta ao estilo dos invasores da USP também .

E finalmente, pra não dizerem que eu tenho birra com meu amigo Murphy, eis que na entrada do avião, já na volta, os fiscais descobriram uma poderosa arma que eu havia esquecido de tirar da mala de mão: meu conjunto de faca, garfo e colher inseparável em viagens, daqueles de acampamento.

Confiscaram. E depois, dada a minha periculosidade, fizeram a mim e só a mim, tirar sapatos e passar  por uma revista geral.

Essa Murphy ainda me paga…Ele que me aguarde!  

3 thoughts on “velhos amigos

  1. TEnho certa aversão por quem escreve leis. Por isso, jamais me aproximei desse tal Murphy. Nem um café, nem nada. Curei meu receio de avião iniciando um curso de pilotagem, escolho sempre corredor em uma poltrona longe da asa e levo minha própria máscara para os olhos. Só falta mesmo conseguir dormir.
    🙂

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