nossa senhora das tomadas

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 Dizem que este era um país católico. Em casa éramos. Fui batizada, crismada, primeiro-comungada e casada em igreja católica. Não fui, porém, mais do que a 3 ou 4 missas em toda a vida, alguma das quais em velórios ou casamentos. Assim éramos católicos, lá em casa.

Quando eu ia dormir, no mesmo quarto com minha avó enquanto ela foi viva, rezávamos – ela rezava e me fazia repetir – o Pai Nosso em italiano. Um ritual que me fazia adormecer antes do amém final.

Minha mãe lembrava-se de rezar quando chovia forte com trovoadas. Aí ela se enfiava no quarto escuro, ajoelhava-se ao lado da cama e rezava com todo fervor. Ela morria de medo de chuva com trovoada. A mim, mandava ficar embaixo da mesa da cozinha. Não sei por que, mas ela achava que se caísse um raio em casa, a mesa da cozinha iria me proteger.  E também cobria espelhos com panos. Ela nunca foi a missas, mas as chuvas de verão reafirmavam nela a fé pragmática.

Mas apesar dessa religiosidade de mentira, de aparências, havia, na minha e na maioria das casas que eu conhecia, a religiosidade exposta em símbolos. Em casa tínhamos uma enorme Santa Ceia na sala de jantar. Perceberam a conexão? Ceia, jantar, tudo a ver…

Na casa da minha tia, na qual eu passava algumas férias, havia na sala um enorme quadro de Jesus, aquele de cabelos compridos e levemente ondulados, dando alguma esmola para uma criança ajoelhada. E na moldura um coração quase em tamanho ( mas não forma) natural, vermelho. Eu tinha um certo medo, procurava não olhar.

Mas nessa mesma casa, no quarto, havia uma coisa primorosa: uma nossa senhora dentro de uma redoma de vidro, verde-clara, que brilhava no escuro! Quantas noites não adormeci olhando pra ela!! O mesmo fenômeno físico daquelas primeiras tomadas de luz que brilhavam no escuro. Que eu também gostava de olhar em horas de insônia.

Na casa de uma amiga nossa, japonesa e católica fervorosa, uma nossa senhora no quarto, daquelas de manto azul bordado, de uns 40 cm. Um manto de pano, bordado com linha dourada. Lindão, eu achava. Muito melhor do que o Buda risonho que havia no quarto do marido dela (eles dormiam separados, como separados viviam, embora juntos. Coisas de antigamente)!

Não sei se a fé precisa de símbolos. Mas o ser humano precisa de concretudes, eu sei.

Agora recordar com carinho só mesmo aquela imagem que brilhava no escuro, de camelô. Adoro coisas que brilham no escuro, sejam santos ou olhos de gato de estrada…

Sim! Meu relógio também brilha no escuro!!

5 thoughts on “nossa senhora das tomadas

  1. Apreciei de sobremaneira a concretude do relógio luminoso!
    Também tenho para venda Nossas Senhoras de Fátimas que brilham no escuro… e a bom preço!

  2. Oi, Maray.
    Na verdade, essa é a forma de professar a religião católica de uma parte muito grande dos católicos brasileiros. Quanto a essas coisas que brilham no escuro, gosto muito de vagalumes. Mas o mais curioso que já vi, aqui no sítio, foi uma lagartixa que havia acabado de engolir um vagalume inteiro. De quando em quando, ele acendia dentro da própria. Foi a primeira (e única) vez que vi uma lagartixa com barriga luminosa.
    Abração.

  3. mfc: a fé vendida a bom preço: acho que essa é a fé que se professa hoje né? Nos primórdios, quem comprava alguma coisa era o diabo. E cobrava os olhos da cara, digo, a alma do sujeito. Hoje os pastores cobram mais ou menos a mesma coisa e nem dão nada em troca…

    JF: vagalume é lindo também! Essa devia ser uma lagartixa fashion, as aqui de casa só comem insetinhos sem graça nem glamour 😉

    Santos Passos: eis que afinal Bragança está te abrindo alguma janela para a possibilidade da fé…mesmo que a base de lagartixas do interior de sampa 😉

  4. Nunca fui batizado. “Eles escolhem, quando crescer.” Fui a missas, Bar Mitzvah, Eid-fitr (final do ramadã), Vesak e a terreiros de Candomblé. Na Bahia existem as “festas de largo”: no dia do santo ou santa, o padre da igreja dedicada a ele (ao santo, não ao padre) reza a missa, fecha a igreja, se troca e vai acompanhar o grupo de bahianas que lavará as escadas da igreja, festejada com o orixá correspondente (conhece a história, né?). O padre não pode ser visto e fica de longe, apreciando, comendo e bebendo. Sim, o Brasil é um país católico. :)

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