não nasci pra faquir

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Houve uma época, remota, devo dizer, em que era moda aparecerem faquires. Uns sujeitos que ficavam sem comer um montão de tempo, em urnas de vidro, muitas vezes com cobras junto ou deitados em cama de pregos.  Eram uma atração por onde passassem. Por que? Não sei.

Eu era garotinha e também prestava atenção neles quando apareciam na televisão. Ao vivo mesmo nunca vi, mas pelo que lembro, ficavam expostos no centro da cidade.

Eu não entendia na época porque alguém, sem necessidade, ficava sem comer. Porque alguém não dormiria numa cama, por pior que fosse, enfim, essas coisas que as crianças não entendem e que alguns, como eu, continuam não entendendo, embora já bem longe de serem crianças.

Quando pari meus filhos, ambos de parto natural, berrei o quanto pude, apesar das argumentações idiotas de médicos e enfermeiras de que eu, ainda mais sendo psicóloga, devia me controlar. Houve até uma enfermeira oriental que veio me dizer que as mulheres orientais não fazem o escândalo que  fazem as ocidentais. Bom, a última coisa que me interessaria naquele momento era qualquer competição oriente versus ocidente. E só não respondi a altura porque eu sou escandalosa, mas educadinha.

Acabo de fazer um exame, daqueles que os médicos acham que a gente, passados os cinqüenta, tem que fazer.  Um exame em que eu deveria apagar totalmente, mas não apaguei. Em que eu deveria me comportar, mas não me comportei. Em que a agulha no meu pulso não devia doer, mas doeu. E eu chiei.

E dá-lhe enfermeiras me fazendo cara feia, dando exemplos edificantes de gente que fica dócil e quietinha. Não eu.

Não posso, não quero, nem pretendo me acostumar com dor. Dor dói, essa é a verdade incontestável. E dor é ruim.

Então, os faquires que me desculpem, as mulheres orientais( se é que essa história era verdadeira) e as enfermeiras que adoram dar sermões também, mas eu vou continuar reclamando. 

Sofrer calado é coisa de estóico. E eu estou mais pra histérica, salve, salve!!  

 

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