rua indiana, 529

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Em 1955 a gente se mudou para o Brooklin. A primeira casa efetivamente nossa, não alugada. Feita devagar, na velocidade lenta em que se podia guardar algum dinheiro.

Mudamo-nos com a casa ainda por terminar. Guardo nas costas, até hoje, as marcas de uma queda de andaime, brincando de super-mulher voadora. Nem super-mulher, muito menos voadora, mas ninguém me avisou.

E nessa casa, nos fundos de um terreno comprido, de 50 metros, estava ela, a garagem.

Pra que garagem, perguntou minha mãe, a segunda mulher mais pragmática que conheci, se a gente nem tem carro? ( a primeira sou eu, modéstia a parte).

Ora, um dia pode vir a ter, disse o homem mais sonhador que conheci, meu pai.

Nunca tivemos, ou melhor, ele nunca teve, enquanto viveu. Mas a garagem foi feita. Compridona, dava pra guardar dois carros de comprido ou um ônibus. Escondida, da rua mal se via.

Garagem fazia parte da área de serviço da casa. Havia o quarto de empregada, um banheiro, a lavanderia e a garagem, nessa ordem de importância.

Quanta coisa não se fazia numa garagem!! Na nossa eu e minha avó nos escondíamos pra jogar cartas. Eu brincava de teatro em dias de chuva. Meu pai guardava quanta tranqueira houvesse pra “ se um dia precisar”. Até um cabrito ganho foi guardado lá. Vivo e cagão, pra desespero da minha mãe. Que, devo dizer, assou-o com prazer quando chegou o natal daquele ano.

Nas garagens de antigamente faziam-se ensaios de banda. E bailinhos.

Consertavam-se carros, guardavam-se ferramentas, o carrinho do bebê já adulto, pneus velhos, varas de pescar, bicicletas de todos os tamanhos.

Nas garagens de antigamente, com porta, é claro, guardavam-se até mesmo carros. Escondidos dos olhos da rua, não por medida de segurança, mas por medida estética.

Carro naquela época era só para transportar pessoas. Não pra ser exibido.

Hoje quando vejo nas casas, bem na frente, um monte de carros, muitas vezes de valor maior do que a própria casa,  e leio que a velocidade média em horários de pico ( todos, na realidade) é igual a velocidade de um bom pedestre, me ponho a lembrar com saudades daquelas garagens. Que botavam os carros em seu devido lugar: lá nos fundos, junto ao carrinho de pedreiro e aos baldes de lavar quintal. Junto àquelas coisas que nos facilitam a vida mas não são o ponto central.

Bobagem. Estou é ficando velha, com certeza.

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