capivara

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Fico com uma inveja muito grande das pessoas que têm um rio pra admirar, fotografar, simplesmente olhar.

Das pessoas que têm um lugar que lhes acompanha durante a vida. Que elas, ao crescer e ter filhos, possam trazê-los um dia e dizer: olha, que lindo, desde a tua idade eu aqui vinha…

Eu já não tive. Lugares, só de ouvir contar. A Castelabatte de minha avó, pra onde breve irei, sabendo que não é mais a da minha avó, a Atibaia do meu pai, até o rio Tietê da minha mãe, quando limpo e palco de regatas, vejam só!

Eu admirei o rio Pinheiros, quando, aos domingos, a família ia em peso, depois do almoço e de serem expulsos da cozinha por minha mãe, pra caminhar. Já devia ser sujo, mas não há comparação. E, sobretudo, não havia Marginais. Apenas um rio, com uma trilha de terra, nas duas margens. 

Meus filhos não acreditam. Nem que ele foi só um rio que corria, nem que eu o conheci assim. Às vezes, nem eu mesma acredito.

Mas queria ter um lugar pra deixar de herança.  Um recanto pra pensar, pra descansar.

Não precisava ser meu. Não sou territorialista. Mas que se mantivesse, resguardado em seu frescor.

Tudo que já tive, que ao menos de longe se assemelhasse a isso, virou pó. Depois concreto. E sujeira, muita sujeira.

Não posso pensar na vida nas Marginais. Não há vida nas Marginais.

Minto. Há. 5 ou 6 capivaras, ali perto da ponte da João Dias que insistem em viver.

Eu sei porque já andei a pé por ali. Em meio das garrafas pet, da sujeira, das plantas empoeiradas, sufocadas pela poluição. Só as capivaras.

Como eu gostaria de ter um rio…

Na outra encarnação, quero vir capivara.

Porque o rio passa.

Mas elas, elas ficam.

 

3 thoughts on “capivara

  1. Há uma canção popular portuguesa, da região alentejana, que tem uma quadra assim:

    Não me inveja de quem tem
    carros, parelhas e montes;
    Só me inveja de quem bebe
    a água em todas as fontes.

  2. Nunca fiquei muito tempo no mesmo lugar; um dos apelidos da juventude era Cigano. Em compensação conheci um monte de lugar. O rio Po passa na cidade, mas também é poluído, apesar de ainda ter peixes. Já o rio Trebbia – o rio da província de Piacenza – é incontaminado no trecho que vai até Marsaglia. Espero que seja ele, o Trebbia, a lembrança que acompanhará minhas filhas. Mas elas também tem alma cigana.

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