testemunha ocular

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Dizem que a gente tem memórias e reinvenções de memórias. Eu acho que a gente tem mesmo reinvenções.  Parece tudo muito real, você jura que aconteceu daquele jeitinho mesmo que você lembra e aí vai checar com alguém – as famosas testemunhas oculares da história – e percebe que a coisa não foi bem assim.

Tá, as testemunhas oculares da história também processam suas ( delas e nossas) memórias. E também podem devolver, quando questionadas, memórias distorcidas.

Bom, de qualquer jeito, a gente tem que acreditar em alguma coisa. Distorcida ou não. E não, desta vez não estou falando de política ou religião, embora…deixa pra lá.

Estou falando do namorado da minha prima.

Moreno, um lindo sorriso, meio pra gordinho, mas daquele gordinho charmoso, que agrada ao olhar, se você não for das mais exigentes.

E eu não era.

Tinha uns seis anos e passava as férias na minha tia. Mãe da minha prima. Aquela do namorado bonitão.

Ele morava duas casas na frente da casa dela. À esquerda, de quem olhasse a rua de costas para a casa da minha tia.

Ele gostava de dançar. Tanto que nos bailinhos da tia, que costumava tirar tudo da sala pra ajeitar o “salão”, ele vinha e dançava.

Ele me paparicava com sorvete, pirulitos e balas. E sempre me fazia perguntas sobre a prima.

Eu adorava ele. E fazia o maior esforço que podia, aos seis anos, pra minha prima dar mole e namorar o moreninho vizinho, minha fonte  de petiscos.

E ela dizia que ia topar.

Daí eu voltava pra casa, ao fim das férias e não via mais a prima e seu pretendente.

Até o dia em que ela casou com o vizinho da frente!

Não, não o moreninho simpático dos petiscos, duas casa na frente, à esquerda.

Com um magrela alto, feioso e carrancudo, duas casas na frente à direita.

E ainda por cima ela me afirma, mais de cinqüenta anos passados, viúva, que nunca, em momento nenhum, namorou o simpático.

Que nem mesmo lembra de alguém assim.

E eu posso com isso?

5 thoughts on “testemunha ocular

  1. Bípede falante

    Li, hoje de manhã, o livro José, do Rubem Fonseca, e ele é exatamente sobre isso, sobre esse inventar e mentir e mentir e inventar sendo quase tudo a mesma coisa :)
    beijoss

  2. A nossa memória não é eterna, mas aqui eu acredito em você. Quem vai esquecer bala, pirolito e sorvete aos seis anos de idade? Coitado do magrela que já se finou, mas já tentou sugerir à sua prima que desta vez dê bola pro moreno? Quem sabe ele ainda pague de novo sorvete para você?

  3. Alziro: ainda bem que eu te faço rir, porque a coisa aí em Londres não tá fácil, né? Bjs

    Bípede: acho que a invenção é a mentira “sem querer”. A gente é capaz de jurar por tudo que é sagrado que é aquilo mesmo. E, muitas vezes, confrontada com a realidade, ou o que as pessoas dizem ser a realidade, a invenção é muito meis legal!! Beijos

    mfc: nesses com memória muito curta me enquadro. Mas só na memória recente. A antiga até que eu lembro, ou penso lembrar, bastante… Abração

    Constantino: hoje o moreno pode me entupir de sorvete que eu não vou dar o “serviço”. Não gosto mais de sorvete. Já se ele vier com chocolate e vinho aí faço qualquer coisa. Ou quase. 😉
    Bjs

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