o essencial

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Meu começo de vida a dois não cabia numa Kombi. Nem num Opala. Mas coube num caminhãozinho, desses de antigamente, aberto, de madeira nas laterais da carroceria. Um típico caminhão de feira, dos pequenininhos.

Uma geladeira vermelha ( última moda na década de 70), uma mesa para quatro, mandada fazer imitando as mesas da Hobjeto ( que móveis !) e dois bancos, um colchão de molas (durou menos de um ano, as costas reclamaram), meu guarda-roupa de solteira, de duas portas, mais minha cômoda, pintada em azul e branco, meu espelho, dois abajures e nenhum criado-mudo, minha estante do quarto, da qual foram serrados os pés e pintada de laranja, pra modernizar. Pequena, também.

E foi só. O pequeno enxoval, com roupa de cama, mesa e banho, mais minhas roupas e livros, mais umas duas panelas velhas e seis pratos rasos e seis fundos, vindos da casa da minha mãe, foram trazidos em algumas viagens do nosso fusquinha.

Depois dessa primeira mudança, mudei só mais duas vezes.

Faz 34 anos que estou na mesma casa. Meus filhos nasceram e cresceram aqui. Às vezes, geralmente depois de um assalto, sou acometida pela “pontada” da mudança. Mas é só uma pontadinha, daquelas leves. Passa logo.

Um caminhão grandão não seria suficiente pro tanto de livros, discos, plantas e objetos em geral que a gente acumulou pela vida afora.

Mas pra mim bastava um colchão no chão, duas panelas, seis pratos e algumas roupas.

O começo de nós dois trouxe só o essencial.

Um amor que permanece por 41 anos e algumas tranqueiras pra manutenção da vida.

E que, tirando o grande amor que não cabe em lugar nenhum, caberia sempre num pequeno caminhãozinho.

Antenado e com a casa às costas! Eu só dispensava o rastro melequento…

4 thoughts on “o essencial

  1. Oi, Maray.
    Quando a Nina e eu casamos, também não tínhamos muita coisa. Três mudanças depois, temos uma tranqueirada que ainda está encaixotada desde a última mudança (2007, para o sítio), inutilizando a garagem e não nos fazendo falta. É como você diz, mais que a tranqueirada, o importante é a permanência do amor. Nós estamos ganhando de vocês em tempo. Muito amor nos 42 anos de casados e mais 4 de namoro.
    Abração.

  2. Em Fevereiro de 87 nós partimos só com 2 malas de roupas em um fusca pra Salvador. A Kamany, nossa akita, ficou esperando 3 meses na casa da sogra. Livros e tralhas, na casa da minha mãe. Começaria tudo outra vez, mas acho que não sairia mais de Salvador.
    :)

  3. JF: a gente “somos” dinosauros salvos do dilúvio, já se deu conta? E, como todos os dinosauros, temos muito em comum. É da espécie 😉

    Allan: eu conheci Salvador em 72. E também quis ficar morando por lá. Porém, depois da menopausa e do cataclisma hormonal que me transformou num ser calorento, hoje queria mais é morar nos Alpes 😉

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