mundo pequeno

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Eu nasci num sobradinho geminado dos dois lados. Pra quem não sabe, colado a outros sobradinhos iguais.  Tenho a impressão que se ouvia toda a vida do vizinho. Eu não, que naquela idade não tava nem aí pra vizinhos e seus barulhos. Eu ouvia os hinos da igreja batista que havia logo depois. E gostava. Tenho a impressão que naquele tempo se cantava bem melhor nas igrejas do que agora. Mas pode ser só nostalgia.

A cozinha desse sobrado não comportava duas pessoas ao mesmo tempo. Por isso eu assistia minha mãe fazer comida sentada em cima da mesa da cozinha ou no fogão, se ela estivesse ocupando a mesa. O fogão era elétrico, legal de sentar no frio.

Tem também a cozinha da casa (!!) de praia onde comecei a namorar. Éramos oito numa casa de um cômodo só, dividido ao meio por uma estante vazada. Na hora de dormir a cozinha virava quarto, era só levantar a mesa e uma de nós dormia com os pés no forno. Devidamente aberto e desligado. Não foi de estranhar que naquelas férias tantos namoros começassem ali. O meu continua, embora minha cozinha de hoje seja grande e no meu forno só entrem pães e tortas e não pés.

Tem também a área de serviço do antigo apartamento do meu filho. Cabia um tanque. E só. Pra ter máquina de lavar ele rifou o tanque. E mesmo assim tinha que botar a roupa pra lavar com metade do corpo dentro da cozinha, pra caber. Ele acabou, finalmente, por mudar de apartamento e de país.  Não exatamente pelos mesmos motivos, quero crer.

Os móveis vão se tornando cada dia menores. Geladeiras emagreceram e ficaram mais altas, criados-mudos parecem miniaturas, ridiculamente pequenos, e cadeiras mal deixam espaço pras nádegas, que continuam sendo duas, infelizmente.

Isso pra não falar das poltronas de avião, onde eu nem consigo fazer palavras cruzadas por não conseguir abrir os cotovelos pra virar as páginas.

Um mundo liliputiano. Pra gente que tem se tornado cada dia maior, a custa de salgadinhos e gordura.

Bem que eu sempre ouvi dizer que o mundo era pequeno. Só que nunca interpretei dessa forma, assim tão literal.

Ele é. E continua diminuindo.

5 thoughts on “mundo pequeno

  1. Alziro: maior em simpatia, meu amigo 😉

    Bípede: olha, já que vc falou, eu encolhi dois cm nos últimos dez anos! Só espero parar por aí!! Bjs!

  2. O que me incomoda nas poltronas de avião é a falta de espaço para as pernas. Com apenas 1,73 mt tenho dificuldade para esticar as pernas e não quero nem imaginar o sofrimento de quem tem mais de 1,80 mt!

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