tudo junto e ao mesmo tempo

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Tenho um monte de rugas que se formaram em torno da boca. Provavelmente pelos muitos anos em que fumei, quase uma Humphrey Bogart, fazendo tudo- ou quase-  com o cigarro pendurado  e também pelo fato de assobiar. Minha voz não é lá essas coisas, mas sou boa no assobio. E adoro música.

Sou capaz de contar a história da minha vida com música, ou pela música.

Das primeiras que lembro é uma que dizia assim “ e o neguinho, com os lábios a sorrir, fecha os olhinhos e começa a dormir”. Era uma música de ninar, acho, e quem cantava pra mim era meu irmão do meio.

Havia também “o sole mio”, que minha avó cantava.

Depois, Rita Pavone, Domenico Modugno, Louis Armstrong, Lucho Gatica, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Dalva de Oliveira, tudo assim, misturado e ao mesmo tempo . A família era grandinha e cada um cantarolava seus preferidos. Só meu irmão mais velho que nunca cantou, só tocava piano e minha mãe, que nunca deu um pio. Nem tocou nada. Acho que nem sabia assobiar. Só dava broncas.

Domingos na adolescência, era dia dos reis do ieieie, com meu preferido Erasmo Carlos. E nos outros dias da semana eu era capaz de assistir igualmente entusiasmada ao fino da bossa e ao bossaudade. Elis e Elizete. Ciro e Jair Rodrigues. Tudo junto e misturado, de novo.

Filhos chegando, chegou também Chico Buarque e au,au,au, ia,i, ó. Au, au, au, cocoricooó! As crianças adoravam e eu também.

As crianças cresceram e eu conheci o Sepultura, Os Ratos do porão, Ultraje a rigor e, meus preferidos, os Mamonas Assassinas. Esses quem gostava era eu, meus filhos abominavam. Tenho o Cd até hoje e não dou, não troco, não empresto nem vendo. Gosto.

Gosto também do Dussek e do Abujamra.

E Gardel e Darienzo.

E de Lulu Santos.  E Liszt. E Tchaikovsky.

Assim. Tudo junto e  ao mesmo tempo.

Mas quando eu morrer, por favor, não me botem nenhum réquiem.

Botem Noel Rosa.

Ou Discépolo.

Ou os dois, tudo junto e ao mesmo tempo! 

 

4 thoughts on “tudo junto e ao mesmo tempo

  1. Ficaria aqui a ler mais vinte páginas desta prosa deliciosa ou, melhor, melodiosa. Ou ambas, ou tudo isso e ao mesmo tempo. A cada nome um som, a cada linha escrita a banda a passar, trens de cores, vira,vira,vira, ele a dizer hello dolly e outros a dançarem num lago de cisnes, tudo isso e ao mesmo tempo, seja ao sol de hoje ou nas águas de março, tudo junto e ao mesmo tempo, tudo como uma onda.

  2. As rugas em torno da boca são hoje chamadas de “código de barras”. :)
    Quanto a Os Saltimbancos, eu seria capaz de jurar que, no vinil que eu tinha, o crédito de letras e músicas era todo pro Chico. O que me deixava chateado com a usurpação. Esse vinil da figura é de quando?
    Beijinhos

  3. Constantino:adorei o comentário! Bjs

    MFC: música é fundamental. Quando eu tinha uns 7 anos, até fado se tocava por aqui, nas TVs. Amália Rodrigues costumava vir ao Brasil com certa frequência. Depois, tudo se americanizou e da música européia quase nada mais restou, por aqui. Pena.

    Renato: esse vinil do post tirei do “pai” Google e não faço idéia de quando é. Mas o meu tem uma história: num dos muitos assaltos que tivemos em casa, os ladrões levaram o som e o vinil do Chico, dos Saltimbancos, estava dentro. Foi-se o vinil, acabei jogando a capa vazia fora. Então não sei se na minha os créditos eram pro Chico somente ou não.

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